Bacteriologicamente puros e estúpidos

1. Estou disposto a admitir que alguém que recebe uma viagem para ir ver um jogo de futebol, num charter com mais 150 pessoas, regressando no mesmo dia, se sentirá condicionado para tomar uma decisão contra a empresa que pagou a despesa. Também me posso convencer de que os jornalistas económicos, por exemplo, que são convidados por empresas para viagens promocionais ou para visitas a novos investimentos nunca mais conseguem ser isentos em relação a essas companhias. Estou disponível para ser convencido de que deputados ou outros membros da classe política não mais se sentirão capazes de atuar com independência e deixaram de olhar somente para o interesse público se forem ver um jogo de futebol a um país estrangeiro pagos por um patrocinador de um clube ou pelo próprio clube. A partir deste momento, olharei desconfiado para todos os políticos, jornalistas, comentadores que vejo em camarotes de empresas em jogos de futebol ou outros espetáculos e tratarei de saber quem paga quando vir um empresário a jantar com um político ou jornalista.

Parece ser este o clima geral, uma espécie de unanimidade em relação ao assunto das viagens ao Europeu de futebol. Unanimidade curiosa, diga-se. Reparei que muita gente não se exaltou com o emprego de Maria Luís Albuquerque ou o de Durão Barroso. Desta vez, pouca gente não se indignou com a conduta dos três secretários de Estado, e notou-se muito menos os habituais comportamentos de trincheira do que em casos de atuações sérias contra a ética ou mesmo contra a lei. Muito gostamos nós de grandes aldrabões! E quanto gostamos pouco de ver as nossas próprias ações ou as que julgamos intimamente que teríamos nos outros.

Claro que não há almoços grátis, claro que não se oferece uma viagem de um dia ou dois para um jogo de futebol sem a intenção de, pelo menos, gerar simpatia. Mas, se acreditamos que um decisor, um jornalista ou um opinion maker se vendem por tão pouco, a questão deixa de ter que ver com a oferta mas sim com o carácter de quem a recebe.

Perguntar-se-á onde é que se deve traçar a linha. Ou seja, em que altura uma oferta extravasa os limites das práticas normais da amabilidade, da cortesia. Uma viagem do tipo da que, concretamente, o secretário de Estado dos Assuntos Fiscais aceitou não é aceitável? Será aceitável um jantar de um político com alguém que se admira, por quem se tem autêntica devoção, e que trabalha para uma empresa com quem se tem um contencioso? Uma viagem num jato privado, com estada num qualquer hotel de luxo? Umas garrafas de Barca Velha pelo Natal?

Quando for preciso passar para uma lei essa resposta (e o governo, pateticamente, parece propor-se a isso) estamos no campo do desprezo total pelos princípios da comum convivência entre partes, no assumir da incapacidade de personalidades importantes para a comunidade fazerem julgamentos éticos simples. Se pensarmos que um secretário de Estado não consegue perceber se uma ida ao futebol o vai condicionar ou não distingue o que é cortesia de tentativa de condicionamento atingimos o nível zero da responsabilização, até da imputabilidade.

Sabendo perfeitamente muitos dos que bateram no peito (políticos, jornalistas e comentadores) e pediram que rolassem cabeças que as promiscuidades se criam de outras maneiras bem mais sofisticadas, deu-me para pensar que, se calhar, criar um caso destes servia tão-só para distrair de casos verdadeiramente importantes. Para tentar que se esqueçam situações eticamente graves que por aí vão acontecendo.

Pois é, mas o mundo é o que é e não o que gostaríamos que fosse. Deve ser por isso que só vi gente a dizer que aceitar um convite, como o que três secretários de Estado aceitaram, teria sido falta de bom senso, uma falta de noção dos tempos que correm. Tempos, pelos vistos, em que se tem de erguer uma barreira intransponível entre as várias partes, em que se chegará ao limite que nem os bons dias ou as boas tardes se podem dar a quem defende interesses diferentes dos que temos de defender, em que os servidores públicos têm de ser tão frios, tão frios ou tão estúpidos, tão estúpidos que acham que se deixam influenciar se aceitarem a oferta de uma lapiseira.

2. O governo deu razão a toda a gente que acha que os secretários de Estado cometeram uma falha grave. Em primeiro lugar, se os três cavalheiros foram a correr pagar as viagens é por que pensaram que o convite, afinal, não era uma simpatia, um ato de cordialidade. Se pensam que erraram num julgamento destes não só devem pagar como devem pedir a demissão: um governante que toma um decisão que, pelos vistos, acha desprovida de ética não pode continuar no governo. Eu acho que não veio mal ao mundo em terem ido, eles acham que sim.

Depois, o anúncio do manual de conduta. Anunciar nesta altura é reconhecer que não só os secretários de Estado agiram mal como disseram que eles não sabem distinguir uma simples oferta de um presente que ponha em causa a sua capacidade para atuar com independência.

Foi o governo o que pior esteve neste processo. Um comportamento politicamente desastroso que terá consequências muito para além deste caso.

Esta coluna vai a banhos. Regressa no dia 4 de setembro

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