Crise política?

Há uma pergunta essencial nestes dias em que o país político e mediático decidiu voltar a falar de crise política: o que levaria PS, Bloco, PCP e Verdes a quebrar os acordos assinados em 2015, provocando uma crise política e eleições antecipadas, a ano e meio do final da legislatura e com a economia e o país no estado em que estão?

É óbvio que a grande maioria do capital político fruto dos bons resultados da economia e das finanças públicas será rentabilizado, chegando as eleições, por António Costa e Mário Centeno, mas é igualmente óbvio que comunistas e bloquistas têm uma quota-parte generosa de ganhos de causa a apresentar aos seus eleitorados. Por outras palavras, à parte as costumeiras encenações de divórcio, já uma tradição entre o abril do Programa de Estabilidade e o outubro do Orçamento, o guião está suficientemente bem estudado por todos os parceiros para que nada de grave aconteça.

Mais. Bloco, PCP e Verdes alinharam em novembro de 2015 com uma estratégia bem definida e traçada por Mário Centeno - a prioridade seria, como foi, o cumprimento dos compromissos europeus e o que sobrasse iria, como foi, para a reposição de rendimentos e não para a retoma sem travões do investimento público ou para a requalificação dos serviços públicos. Que isso seja agora motivo de ameaças mais ou menos veladas à estabilidade governativa é apenas sinal de que abriu a temporada da contestação e da luta pelas migalhas orçamentais que vão alimentando a lealdade da esquerda ao governo socialista. A época fecha a 15 de outubro e aposto que sem sobressaltos de maior.

Dito isto, o valor de que se tem falado - 0,4% do PIB, diferença entre os 1,1% de défice inscritos no OE em outubro e os 0,7% previstos no Programa de Estabilidade, cerca de 800 milhões de euros - daria para umas quantas unidades de pediatria no São João ou para recuperar um número significativo de escolas. A questão é saber se um país ainda com perto de 120% do PIB em dívida pública pode dar-se ao luxo de não a tentar abater sempre que puder. Só em juros, estes 800 milhões custam, mais cêntimo menos cêntimo, 24 milhões/ano e, já agora, dois milhões a cada mês.

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João Almeida Moreira

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