Centeno, um bom ministro com um mau sentido de tempo

Não sei se será cedo ou tarde, fácil ou difícil virmos a conhecer as reais razões para a decisão de Mário Centeno. O certo é que escolheu o pior momento para sair do governo. Mesmo vendo a decisão de um ponto de vista puramente pessoal, o momento é tudo menos óbvio.

Que versão da história ficará para a História? A do ministro das finanças que conseguiu o primeiro excedente orçamental em democracia, ou a daquele que executou orçamentos com a economia em crescimento, mas deixou o cargo aos primeiros sinais de recessão?

Mário Centeno tem contas a ajustar com a história dele e estão à espera no Banco de Portugal. O homem que Centeno irá substituir, se o enredo desta novela com episódios demasiado previsíveis se confirmar, chumbou o nome dele para a direção do departamento de Estudos Económicos, apesar de Centeno ter tudo para ficar bem classificado no concurso interno para o cargo - era o número 2 daquele departamento desde 2004, desde os tempos de Vítor Constâncio.

Estávamos em dezembro de 2013, Vítor Gaspar era há poucos meses ex-ministro das Finanças - haveria de liderar uma comissão que estudou a redefinição da missão do dito departamento de Estudos Económicos - e Carlos Costa explicava-se em comunicado, afirmando que nenhuma das candidaturas ao cargo de diretor do gabinete de Estudos Económicos - economista-chefe - tinha reunido todos os requisitos. A decisão do Governador terá sido consequência direta de alguns artigos e entrevistas de Mário Centeno, críticos em relação a algumas políticas do governo PSD/CDS em tempos de Troika, numa altura em que estava ainda longe de ser convidado por Costa a desenhar o cenário macroeconómico em que o PS assentou o programa eleitoral de 2015.

Não sabemos até que ponto este ajuste de contas com Carlos Costa move Mário Centeno - talvez seja apenas uma nota de pé de página nesta história -, mas sabemos que este não era, de todo, o momento certo para António Costa mexer nas Finanças. Não existindo esse racional do tempo da política, da economia e das finanças do Estado às portas de uma recessão, resta-nos o plano pessoal. O plano de um pedido que estava na secretaria do Primeiro-ministro há já uns tempos e de um afastamento que ficou notório na forma como foi gerida a última transferência financeira para o Novo Banco - nada correu bem entre São Bento e o Terreiro do Paço.

Para lá do debate público que tem andado em lume brando há uns meses e que vai intensificar-se nas próximas semanas, sobre se é de bom tom Mário Centeno atravessar o Terreiro do Paço das Finanças para o Banco de Portugal, interessa agora saber o que aí vem.

Do ponto de vista de António Costa, João Leão terá sido o mais próximo que encontrou para se manter fiel à velha máxima que diz que "em equipa que ganha, não se mexe". Poderá ser mais do que isso, mais do que uma versão B de Mário Centeno?

João Leão, que assume funções na próxima segunda-feira, sai da secretaria de Estado do Orçamento com uma imagem de rigor e frieza na tomada de decisões. Até prova em contrário, é a pessoa certa. Nos próximos meses e nos próximos anos e orçamentos, terá certamente uma extensa lista de decisões muito difíceis pela frente. Apesar de todos os anúncios de armamento pesado vindos de Bruxelas, o que está anunciado não chega. O país terá de recorrer ao crédito e rezar para que Lagarde mantenha as políticas e evite uma nova crise das dívidas soberanas.

Já o escrevi antes e insisto, muito do que está a acontecer soa a uma reposição de um filme trágico que esteve em cena entre 2009 e 2011. Tal como então, estamos a ser aconselhados a deitar dinheiro sobre a economia. Muito dinheiro e boa parte dele com recurso ao crédito. Agora, é esperar que a lição tenha sido estudada e que as fases que se seguem sejam suficientes para evitar a desconfiança das agências de notação. Dificilmente um país cujo ratio de dívida pública em relação ao PIB deverá andar entre os 130% e os 140% no final deste ano vai escapar a essa desconfiança.

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