Populismo 4.0

Chamavam-se nacionalistas, soberanistas, neofascistas, nacional-católicos, neoconservadores, radicais de direita. Posicionaram-se como antifederalistas, anti-Bruxelas, contrários ao projeto europeu do bem-estar social e da esperança. Excluídos das instituições, eram originalmente pequenos partidos de protesto. Em França, chegaram perto dos 20%, mas, graças a um curioso sistema eleitoral, andaram estes anos todos sem deputados, um punhado de autarcas, sem representação nos reguladores, tribunais, empresas públicas e restante aparelho do Estado. Na Alemanha, ficaram sempre excluídos pela regra dos 5%. No Reino Unido, são dizimados pelo sistema de círculos uninominais desde os anos 1990. Na Áustria, quando entraram no governo federal, o país foi sancionado pela União Europeia. Agora que já mandam na Hungria e na Polónia, a Europa encolhe-se. São os populistas de primeira geração. Le Pen esteve presente neste domingo, mas ainda não ganharam desta vez. Trump conseguiu o poder nos Estados Unidos.

Do lado oposto, foram comunistas, trotskistas, estalinistas, maoistas, chavistas, castristas e muitos outros istas. Enquanto andaram pelos governos como parceiros muito minoritários, em Itália, em França, Chipre, na Grécia ou nos países escandinavos, eram apenas comunismo europeu ou esquerda radical. Mas depois o Syriza apareceu, cresceu e ganhou. Deixaram de ser comunistas ou trotskistas. Passaram a ser simplesmente populistas. São os populistas de segunda geração.

Num mundo cheio de populistas, da direita à esquerda, tinham também de aparecer os populistas do centro. E a expressão apareceu para cunhar o novo presidente francês Macron. No passado eram centristas, moderados, reformistas, renovadores, até neoliberais. Ao temperar o entusiasmo europeu com elementos de ceticismo, ao relativizar o atual contexto cheio de dúvidas sobre a construção federal, ao criticar os partidos tradicionais, o centro também se encheu de populismo. São os populismos de terceira geração, dos quais o nosso Presidente Marcelo, entre os seus afetos e as suas cumplicidades com a gerigonça (esse pleno populismo de esquerda), já foi acusado de ser um precursor. E, na semana passada, até Rui Moreira foi chamado de perigoso populista.

Mas continuemos em Portugal. Acredita que há corrupção no atual sistema democrático? Populista. Fala dos famosos submarinos? Populista. Acha mal um primeiro-ministro ter um amigo que lhe empresta 20 milhões de euros? Populista. Espantado que os 15 mil milhões de euros disponibilizados aos bancos não provoquem mais convulsão social? Populista. Desconfia que tudo no caso BES acabará em arquivamentos e prescrições? Populista. A justiça penal falha sistematicamente? Populista. A classe política deve ser criticada pela forma como favorece os seus interesses pessoais? Populista. Os candidatos eleitorais persistem em ficções para fugir dos problemas? Populista. Foi a classe política que fez a legislação a seu favor? Populista. Há óbvios conflitos de interesse? Populista. Cita o Correio da Manhã? Populista. Temos, pois, que as elites e as classes dirigentes, ou as instituições por si colonizadas, não são passíveis de qualquer crítica por um cidadão informado e descontente. Quem critica é simplesmente populista. São os populistas da quarta geração. Já não são nem de esquerda, nem de direita, nem do centro, mas qualquer cidadão que tem críticas à classe política instalada.

De repente, só há populismo. Tornou-se o novo insulto fácil, a melhor forma de fugir de qualquer discussão séria, a desculpa favorita das elites para evitar prestar contas. Ao mesmo tempo, não há demagogia, não há mentira, não há engano, mas apenas populismo. A direita é populista, a esquerda é populista, o centro é populista, os eleitores insatisfeitos são populistas. Em vez de serem chamados burros ou idiotas, imorais ou desmancha-prazeres, são populistas, o que parece menos emocional e intelectualmente mais sapiente. Chegados ao populismo de quarta geração, nem vale a pena tentar definir o que significa "populismo," como ainda vão insistindo ingloriamente alguns politólogos.

Apesar de pensar que a infeliz moda vai ficar por muito tempo, parece-me que o melhor caminho seria eliminar completamente a palavra "populismo" e regressar aos conceitos antigos. De um lado, radicais de direita, etc. Do outro, radicais de esquerda, etc. Ao meio, reformistas, radicais do centro, etc. E os eleitores insatisfeitos são apenas isso, insatisfeitos. Cada um com a sua narrativa própria e diferenciada. Mas, ao menos, fica mais fácil entendermo-nos. Sem "populismo".

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