Estado da direita (I): o sorpasso do CDS

Comecemos pelo que Cristas tem feito bem. Aproveitar a guerra civil do PSD, a mais grave desde 1978 (que culminou na saída de parte do grupo parlamentar e na formação da ASDI à volta de Sousa Franco), para mobilizar potencial eleitorado na direita. Beneficiar de uma onda muito positiva na comunicação social como o CDS nunca teve: à direita, porque o aparelho de comunicação do passismo quer acabar com Rio, preferencialmente antes das eleições; à esquerda, porque uma maior dispersão de votos entre o PSD e o CDS favorece inevitavelmente o PS (pela mesma razão que, em 2015, a direita andou com o BE ao colo, evitando a concentração de votos no PS, tática que evidentemente resultou nas legislativas). Com o apoio da comunicação social muito favorável e das redes sociais, criar uma realidade virtual que valoriza o CDS. Fala-se em renovação, quando os dois nomes conhecidos para o Parlamento Europeu são os mesmos de sempre (incluindo o mesmo cabeça-de-lista dos últimos dez anos). Anuncia-se alargamento à sociedade civil, quando todos os nomes na equipa que prepara o programa eleitoral são gente séria e muito respeitável, mas não são uma surpresa, estão ligados ao CDS há muito tempo (com a exceção de Nádia Piazza, mas uma andorinha não faz a primavera). Proclama-se liderar a direita e a oposição, quando não há um único nome da área do PSD recrutado pelo CDS. Defende-se um espírito reformista jovem e moderno a la Ciudadanos ou Macron, quando o CDS é um partido "velho", cheio de profissionais da política dos últimos 20 anos, sem um programa concreto para reformar o sistema político (rejeitou mesmo as propostas do PSD nos últimos dez anos), com um historial de episódios pouco transparentes, como qualquer outro partido do sistema.

E agora os problemas. O CDS parte de uma base eleitoral muito delicada. Se usarmos os resultados das ilhas, onde PSD e CDS concorreram separados, o CDS teve qualquer coisa como 6% nas legislativas de 2015 (cerca de 320 a 330 mil votos). As sondagens todas confirmam que por aí anda neste momento, mais coisa menos coisa. E as eleições autárquicas, ponderando as coligações com o PSD e o resultado de Lisboa, confirmaram esses 6% (50 mil votos em Lisboa, 160 mil votos no resto do país, e podemos estimar uns 90 mil votos das coligações com o PSD). Muito longe dos 650 mil votos de Portas em 2011, dos 720 mil votos de Lucas Pires em 1983, ou dos 875 mil votos de Freitas do Amaral em 1976.

Do ponto de vista da mensagem eleitoral, o CDS parte também de uma posição muito complicada. Foi o partido dos contribuintes que alimentou a máquina fiscal durante o consulado de Paulo Núncio (sem fazer a reforma dos tribunais fiscais). Foi o partido reformista que apresentou um powerpoint para a célebre reforma do Estado. Foi o partido que, tendo votado contra a Constituição em 1976, esteve contra a revisão constitucional de Passos em 2011. Consequentemente, o CDS não tem agora o benefício da dúvida que poderá ter tido em 2011. O nível de exigência subiu. Para mais, num contexto de popularidade do atual governo. Sendo assim, dificilmente conseguirá mobilizar novos eleitores naqueles que fugiram do PAF para a esquerda (cerca de 350 mil) ou para a abstenção (cerca de 400 mil).

Mas vamos ser otimistas e imaginar que o CDS consegue realmente recrutar no eleitorado passista muito descontente com o PSD. Não sabemos quanto vale esse eleitorado. Não são certamente um milhão de eleitores, como reclamam alguns dos seus arautos, mas também não são apenas os colunistas do Observador e alguns amigos como dizem outros. Vamos supor que o CDS consegue chegar aos resultados de 2011 ou mesmo um pouco mais - por exemplo, 750 mil votos. Mesmo com este resultado absolutamente otimista e sem nenhum fundamento nos estudos de opinião conhecidos, não há sorpasso nenhum (deixando o PSD próximo dos 1,2 milhões de votos, o pior resultado da sua história). E, se o crescimento do CDS é feito simplesmente à custa do PSD, traduz-se num mero rearranjo dos deputados da direita, não altera a correlação esquerda/direita. Portanto, sendo um excelente resultado do ponto de vista tático, não serve para nada estrategicamente.

O sorpasso do CDS ou um resultado que seja estrategicamente bom para a direita (alterar a correlação esquerda/direita) dependem da capacidade de atrair abstencionistas que fugiram da coligação PAF em 2015. Isso exige duas coisas, que não penso serem realistas neste momento. Primeiro, tornar público um projeto concreto, detalhado, credível, de reforma e regeneração do sistema político a la Ciudadanos ou Macron. Por exemplo, votar contra uma nova lei de financiamento dos partidos políticos simplesmente, nesta altura, já não comove um abstencionista. Segundo, encontrar rapidamente um grupo de "reformadores", próximo do PSD (como Sá Carneiro fez com o PS em 1979), gente que não seja profissional da política, com quem o CDS possa fazer uma coligação e apresentar-se ao eleitorado como um projeto novo. Infelizmente não conheço nenhum grupo de "reformadores" disponível por aí. Em resumo, não acredito que um partido "velho" consiga convincentemente fazer-se passar por "novo". Sendo "velho", não há volta a dar aos abstencionistas. E sem eles, não há sorpasso nem maioria de direita.

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