Aggiornamento das direitas

Quando o Muro de Berlim caiu, a esquerda europeia reorganizou-se. Em Portugal também. Hoje existem três forças distintas (PS, CDU & BE) onde até 1999 só havia duas (a UDP nunca passou de um partido marginal e perdeu o seu deputado em 1983). E até são maioria parlamentar, num arranjo de geometria variável. A crise das dívidas soberanas e a crise dos refugiados impuseram uma reorganização importante às forças da direita na Europa. Evidentemente, a peça principal continua a ser o conjunto das direitas conservadoras, da democracia cristã, humanista, âncora do projeto europeu e apoiante fundamental do Estado de bem-estar social. Ao mesmo tempo, observamos algum êxito de uma direita liberal, moderadamente libertária, com vocação reformista (To Potami na Grécia, Ciudadanos em Espanha, Macron em França e, mais recentemente, o êxito eleitoral dos liberais alemães). E temos a "nova direita", em várias modalidades: umas versões mais radicais, como na Alemanha (Alternative für Deutschland) ou na Holanda (PVV); outras resultando de uma agregação de direitas tradicionais e católicas após uma viragem mais moderada (FN em França); os regimes húngaro e polaco, que apostam na chamada democracia iliberal. Todos fãs de Trump, claro está. Podemos, pois, falar de um processo lento, que já teria sido iniciado antes da crise, mas foi profundamente adulterado com essa mesma crise, culminando nas três direitas distintas, conservadores, liberais e "nova direita", que existem hoje em países como Alemanha e França.

Por uma confluência de fatores, este desenvolvimento tarda em Portugal. Desde logo, não há direita partidária, segundo essa mesma direita. Depois temos três partidos candidatos a este processo (a Iniciativa Liberal ainda não foi a votos). Um, o PNR, não vale mais do que trinta mil votos. Os outros dois, PSD e CDS, apostam em "social-democracia" e "centrismo democrático e social", curiosamente fazendo parte da mesma família europeia (PPE). Ou seja, a direita que não é direita até tem dois partidos, mas curiosamente fazem parte da mesma coligação conservadora na Europa. Então para que há dois e não apenas um se representam exatamente a mesma plataforma política a nível europeu?

A história do CDS e do PSD é conhecida. Qualquer "direita" que o CDS tivesse sido no passado transformou-se no partido de Paulo Portas e do nicho eleitoral do momento (lavoura, feiras, ex-combatentes, pensionistas, contribuinte). Ultrapassou o PSD pela esquerda em 2009, assumiu-se contrário a uma revisão constitucional nas linhas sugeridas por Passos Coelho em 2011, complicou - ou mesmo boicotou - a agenda reformista durante o governo de coligação (basta, aliás, ler o que sobre isso já disseram publicamente os dois ministros mais reformistas, Gaspar e Santos Pereira). Com Cristas passou para o centrismo simpático e sorridente. Com o resultado de Lisboa, é um novo CDS. Se conseguirá mobilizar 10% do eleitorado em 2019, veremos (depende mais da crise do PSD do que de Cristas). Agora, certamente, não representa nenhum projeto ideológico minimamente consistente ou estruturado. Ora, se o CDS é o centrismo simpático, o PSD naturalmente emerge como uma enorme coligação das três direitas. A direita conservadora, católica, tradicional (que evidentemente não se eclipsou em 1974, depois de 200 anos de preponderância na sociedade portuguesa), amiga do Estado de bem-estar social em larga medida gosta de ser chamada "social-democrata" por razões históricas, mas sente-se completamente integrada na sua família política natural, PPE (que não tem absolutamente nada de social-democrata). Depois temos a direita liberal, altamente minoritária, com alguns representantes no CDS, mas fundamentalmente agregada às origens do passismo. E a "nova direita", finalmente saída do armário nestes dois últimos anos, mobilizada nas redes sociais, animada pela candidatura de Ventura em Loures. E admiradora de Trump.

Tenho falado sobre o problema estrutural do PSD e da direita. Aqui está ele: por um lado, um partido sem ideologia, o CDS; por outro, um partido que resulta de uma coligação das três direitas, o PSD. Esta indefinição ideológica não só está na raiz de muitos mal-entendidos à direita, principalmente no PSD, como dificulta um projeto mobilizador e possivelmente vencedor. Explica também a persistência de projetos meramente personalistas no CDS (portismo) e no PSD (passismo) ou mesmo fundamentalmente caudilhista e orgulhosamente esvaziado de qualquer conteúdo ideológico (cavaquismo), em detrimento do debate de ideias ou de políticas públicas. Neste momento, a direita precisava de um aggiornamento na linha do que aconteceu em França e na Alemanha (três direitas, três partidos). A coexistência de conservadores tradicionais, liberais e "nova direita" no PSD vai continuar a ser um enorme problema para a vida desse partido. Porque não é verdadeiramente um partido, mas uma coligação mal negociada e pessimamente estruturada.

A saída de Passos Coelho, de quem fui muito crítico porque, na minha opinião, não foi suficientemente reformista (uma opinião pessoal assumidamente muito minoritária na sociedade portuguesa), em nada resolve a crise de identidade do PSD. Evidentemente toda a discussão já em curso é em torno de personalidades, presa no permanente mito sebastianista (alguém virá salvar a direita e o PSD do seu declínio eleitoral), em detrimento do aggiornamento das direitas. Sendo assim, o PSD continuará a ser o suplente do PS, aguardando o inevitável desgaste deste para voltar a governar, mas sem um projeto sólido e consistente, cheio de contradições internas. Continua a ser "poucachinho" para um espaço político que agrega, no mínimo, dois milhões de votos.

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