Trump adoraria ser adorado assim

A primeira vez que visitei uma biblioteca presidencial americana foi há 20 anos, em Boston, todo um museu dedicado a John Kennedy. Até há uma reprodução do estúdio de TV onde num debate o luminoso filho da aristocracia do Massachusetts esmagou o soturno Richard Nixon, californiano que subira a pulso até à vice-presidência e um dia chegaria mesmo a presidente. Também estão em exposição, claro, vestidos de Jackie.

Comprei uma T-shirt da campanha de 1960, quando o democrata bateu Nixon, que queria ser o sucessor de Dwight Eisen­hower, o general estrela da Segunda Guerra Mundial que em 1952 foi eleito presidente dos Estados Unidos. Paguei ainda dez dólares na loja do museu por uma caixa com crachás de eleições antigas, com curiosos slogans. O de Ronald Reagan em 1980 diz "Let's make America great again" e deve ter marcado tanto Donald Trump que na sua campanha de 2016 pouco mais fez do que plagiá-lo. Diga-se que nem Reagan foi original: já em 1920, Warren Harding proclamava "America first" e "América primeiro" não é assim tão diferente de "Tornar a América grande outra vez".

Dos meus preferidos entre os slogans de campanha americanos nenhum é recente, nem os de 2000 e 2004, as duas presidenciais em que fiz reportagem para o DN. Gosto do de Abraham Lincoln em 1860, "Honest old Abe" ("Honesto velho Abe"), e também do que usou em 1864, em plena Guerra Civil, "Don't change horses in midstream". Franklin Roosevelt copiou este último sem problemas em 1944, lutava-se então contra alemães e japoneses: "Dont' swap horses in midstream". Sim, "Não se muda de cavalo a meio do rio".

O meu slogan de eleição é, de longe, o do general já aqui referido. Eisenhower foi disputado pelos dois grandes partidos até aceitar concorrer pelos republicanos. Aos eleitores não falou de ideologia, mas de carácter. Os crachás de campanha brincaram com o seu diminutivo e proclamaram "I like Ike". Sim, um simples "Eu gosto de Ike". Trump adoraria ser adorado assim.

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