Vírus nasceu socialista mas agora mata à direita

Chegou da Grécia e nesta década tem sido o grande terror dos partidos socialistas na Europa do Sul. Já deixou moribundo o PS francês depois de ter morto o grego. Aliás, foi por ter origens helénicas que este vírus político ganhou o nome de pasokização, nome que é um último vestígio do que foi o grande partido socialista grego, capaz ainda há dez anos de ter votações na casa dos 40%.

Ora, desde 2015, com segunda dose em 2016, que a pasokização parecia ter infetado também os socialistas espanhóis. Duas votações mesmo na linha dos 20% e só permanecer o maior partido da esquerda por uns milímetros. Tal como aconteceu ao seu primo grego, o PSOE via o terrível vírus minguar-lhe as bases de apoio ao mesmo tempo que servia de estímulo à esquerda radical, Syriza num caso, Podemos no outro.

O PSOE definhou mas não morreu. A mais bizarra das curas veio em seu socorro, um partido de extrema-direita chamado Vox que, gerando medo, forçou a militância socialista a reganhar forças e sair do sofá para ir às urnas. Sem surpresa, se o Vox foi a salvação do PSOE, forçando o seu sistema imunitário a reagir, está a ser ao mesmo tempo a doença que faz definhar o PP, a direita conservadora espanhola. Depois das eleições de domingo, o PP está doente, muito mal mesmo. Fez agora ainda pior do que o PSOE em 2015 e 2016. Foi punido por causa da corrupção, também pela ineficácia a governar, mas sobretudo por não defender a moderação que era sua marca, procurando até disputar o eleitorado com a sua cisão extremista, pior ainda tentando cortejá-la para projetos futuros, uma direitização exagerada, que assustou o centro.

Já o PSOE provavelmente curou-se de vez do vírus grego ao saber manter-se fiel a um programa de esquerda, mas sendo europeísta e preservando, o que é essencial no caso espanhol, a capacidade de diálogo com os nacionalistas sem trair a Constituição. Em muitos aspetos é uma fórmula pragmática que explica também que em Portugal o PS tenha sempre parecido imune à pasokização, não só mantendo votações acima dos 30% como até conseguindo governar com apoio da esquerda à sua esquerda. Reduzir o défice não tem de ser sinónimo de ataque ao Estado Social, provou-se.

Há esperança para o PP, que de 44% em 2011 e 33% em 2015 e 2016 passou agora para 17%? Há, mas desde que volte a ser o partido de direita clássica que, sob a liderança de José Maria Aznar (grande crítico de Casado) e mais tarde Mariano Rajoy, até conseguiu maiorias absolutas e faz falta ao sistema partidário espanhol. Mas com o vírus a atacar em duas frentes - além do Vox hiperagressivo também o Ciudadanos no centro-direita - o PP não parece ter em Pablo Casado remédio à altura para travar a pepezização, potencial nome do vírus variante direita. Pelo menos será menos traumático de substituir do que Georges Papandreou.

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