O problema dos holandeses connosco

Que países ou povos se transcenderam na história da humanidade, perguntei um dia ao autor de um livro intitulado A Grande História do Mundo. Respondeu-me, os mongóis por causa do império de Gengis Khan, os portugueses por causa dos Descobrimentos e, para certa surpresa minha, os holandeses. Sim, os holandeses, que depois da reação do primeiro-ministro António Costa à conversa "repugnante" de um ministro chamado Wopke Hoekstra sobre descontrolo orçamental dos espanhóis, voltam a ficar mal na fotografia, pelo menos aos olhos dos europeus do sul, sobretudo os ibéricos, que esperam solidariedade nestes tempos de coronavírus.

François Reynaert, fazendo analogia com Portugal, descreveu-me "outro pequeno país de grande destino: os Países Baixos ou Holanda. Quando se chamavam 'províncias unidas', nos séculos XVII e XVIII, lançaram-se também nos oceanos para constituir um império impressionante e, durante esta idade de ouro, deram à Europa lições de liberdade e tolerância acolhendo os proscritos e permitindo a publicação de todas as obras proibidas noutros lugares".

Tanto a construção do império holandês como as suas lições de tolerância cruzam-se com a história de Portugal. E de Espanha. Por um lado, depois de se libertarem dos Habsburgos que reinavam em Espanha, os holandeses lançaram-se ao ataque das possessões portuguesas, do nordeste brasileiro a Malaca, passando por Luanda, Goa e Ceilão, uma verdadeira guerra mundial que durou décadas e acabou empatada. Por outro, a tolerância religiosa holandesa fez do país terra de refúgio de muitos judeus portugueses, como a família de Baruch Espinosa e ainda hoje em Amesterdão se pode visitar a Sinagoga Portuguesa.

Em relação aos espanhóis, é difícil aos holandeses esquecer a marcha do duque de Alba no século XVI, tentando contrariar a vontade de independência das províncias unidas, onde o calvinismo se impunha ao catolicismo. Com alguns factos, e muita propaganda, assim nasceu a lenda negra espanhola. Já agora, o mesmo duque de Alba entregará Lisboa (e Portugal) a Filipe II passados poucos anos, dando novos argumentos aos holandeses para fazerem guerra aos portugueses.

O sucesso económico e social da moderna Holanda marca muito a forma como se olha hoje para esse passado imperial de choque com os países ibéricos. Não falta, por exemplo, em momentos de crise no Brasil quem se queixe de os portugueses terem triunfado, pois o colonizador do norte da Europa teria, dizem, deixado um legado melhor. Com humor, outros brasileiros respondem que sim, que se a colonização holandesa tivesse triunfado hoje haveria lá um Suriname gigante.

Suspeito que na Holanda subsistirá um preconceito em relação a Portugal e sobretudo a Espanha que vem dos séculos XVI e XVII. O país que com apenas 17 milhões de habitantes consegue estar entre as 20 maiores economias do mundo (só um lugar atrás da Indonésia, as antigas Índias Orientais Holandesas, com 270 milhões de habitantes) tem-se em alta conta. E sobretudo considera-se de boas contas, algo que não reconhece aos europeus do sul.

Aliás, já o antecessor de Hoekstra na pasta das Finanças holandesas, Jeroen Dijsselbloem, ficara tristemente célebre durante a crise do euro por ter dito que portugueses e espanhóis, gregos e italianos também, gastam o dinheiro "em copos e mulheres" e depois "pedem que os ajudem".

O escritor J. Rentes de Carvalho, que por razões políticas se exilou na Holanda (o salazarismo e o franquismo também não ajudaram nada à imagem da Península Ibérica naquelas bandas), tem aproveitado as suas décadas de vivência entre as duas culturas para nos ensinar nos seus livros muito sobre a Holanda. E costuma contar um pormenor que distingue bem os dois povos: o almoço. Enquanto cá é quase sagrado, por lá não passa muitas vezes de uma sandes e uma bebida, pois só ao jantar se faz regra o comer de garfo e faca. Significa isto que os holandeses são mais trabalhadores do que os portugueses? Não, só que conseguem sair mais cedo do trabalho e aí até podemos aprender com eles.

Aliás, não é isto que é a União Europeia? Vivermos juntos, ultrapassarmos juntos as diferenças, aprendermos uns com os outros de modo a ser vantajoso para todos, ultrapassando preconceitos históricos? António Costa fez bem em se indignar, mas não façamos da admirável Holanda um alvo fácil da nossa frustração nestes temos de pandemia, pois se a União Europeia não tiver futuro as culpas serão repartidas e todos ficaremos a perder.

Dito isto, um ponto final, de novo sobre o nosso primeiro-ministro: Rentes de Carvalho numa entrevista a Joana Emídio Marques também disse que somos um "país de medricas, de gente subserviente, assustada. Porque somos carinhosos e julgamos sempre que os outros sabem mais, têm mais". Graças a Costa isso os holandeses não podem dizer de nós nestes dias.

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