Não há que ter vergonha de gostarmos de Portugal

Em três décadas de repórter ao serviço do DN já testemunhei muitas provas de admiração por Portugal, fosse o vendedor no souk de Bagdad que sabia de cor o nome de todos os jogadores da seleção dos tempos de Figo e Rui Costa (era também o tempo de Saddam Hussein), fosse o padre em Bolama que me confessou que ter visitado Fátima foi o dia mais belo da sua vida.

Não desfaço do valor acrescentado do futebol (sei até que há crianças da nossa diáspora na América a aprender português porque se orgulham do CR7), nem do da importância do catolicismo (pergunte-se o que vale o Convento de Tomar, o Mosteiro da Batalha ou o dos Jerónimos para o nosso turismo e ficaremos surpreendidos). Também não minimizo o impacto das reportagens na CNN ou no The Guardian sobre a beleza das praias algarvias ou sobre o genial compromisso entre o homem e a natureza que são os Açores. E ainda bem que há lá fora quem se lembre da beleza da canção com que Salvador Sobral ganhou a Eurovisão, um intérprete nos antípodas do marketing e uma letra a aproveitar a beleza da língua portuguesa.

Gosto de Portugal, daquela forma de se gostar de algo que sentimos como tão nosso que lhe ressaltamos as qualidades e desculpamos os defeitos. E gostar de Portugal não significa achar que o país é melhor do que os outros, que somos melhores do que os outros. Isso, sim, poderia ser visto como nacionalismo no pior dos sentidos. Confesso que gosto de vários outros países, de forma diferente da que gosto de Portugal, mas gosto. E logo a começar por Espanha, um vizinho tão admirável, tão pujante, tão parecido mas ao mesmo tempo diferente. E gosto da Coreia do Sul, da Roménia, da Finlândia, e fico por aqui porque a lista - e por isso aprecio tanto viajar, nos aviões como nos livros - é extensa.

Nos últimos meses não faltaram os elogios a Portugal lá fora. Já tinham escrito sobre sermos um exemplo de como se sai da austeridade, com a economia a crescer e o défice controlado. Agora televisões e jornais pelo mundo fora destacam como a covid-19 infetou e matou menos em Portugal do que no resto da Europa Ocidental. E as justificações apresentadas são diversas, desde um povo quase confucionista que aceita bem as diretivas de quem governa e até fica mais em casa do que era preciso, até aos que falam da cooperação entre o Estado e as empresas para produzir desde zaragatoas a ventiladores.

Prefiro, porém, quando identificam o Serviço Nacional de Saúde criado no pós-25 de Abril como uma garantia de que a nenhum infetado será perguntado pelo cartão de crédito à entrada do hospital. Ou quando contam que mesmo os imigrantes ilegais terão acesso aos serviços médicos sem grandes perguntas nestes tempos complicados. Não é por acaso que muitos dos elogios vêm de Espanha ou do Brasil, num caso um país muito abalado pela pandemia mas também pela falta de coesão, noutro um país onde ninguém se entende sobre a forma de combater o vírus.

Gostei também da suspensão dos ataques políticos nestes meses, porque a democracia, quando é sólida, sobrevive bem a isso, basta pensar em tempos de guerra e no velho exemplo do governo de salvação nacional com que Winston Churchill liderou o Reino Unido quando estava sozinho contra o nazismo.

A prioridade era salvar vidas, é salvar vidas, e Rui Rio, o líder da oposição, assumiu isso como natural. Aquilo que lhe falta em reconhecimento nas sondagens talvez chegue no dia das eleições, afinal mostrou dotes de estadista. E António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa, tão amigos na hora de festejar o golo de Eder no Europeu de futebol, mostraram agora que também nas horas difíceis são capazes de se entender em benefício de todos. Apoia ou não o primeiro a recandidatura do segundo? Isso é politiquice e não traz nada de novo nem de bom a Portugal. Compare-se antes os dois com muitos dos líderes que mandam lá fora.

Sei que começam as dúvidas sobre o acerto da decisão de confinarmos, interrogações sobre de quem é a culpa da atual crise económica, das empresas que tremem e dos trabalhadores que estão em lay-off. E já percebi que não faltam os que garantem que outro caminho teria sido possível (talvez, mas a Suécia fez diferente e o resultado foi mau na saúde e mau na economia). Por mim, agradeço o desempenho da ministra da Saúde, Marta Temido, e da diretora-geral Graça Freitas. Olhe-se para o currículo de ambas e veja-se que também ajuda a explicar porque somos vistos como um caso de sucesso contra a covid-19. Obrigado também aos médicos, aos enfermeiros e a todos os que nos hospitais estiveram na linha da frente.
O desafio agora é não deitar tudo a perder, passarmos de repente a estar nas notícias como o país que confiou de mais. Esta não é uma luta de velhos ou de novos, de idosos grupo de risco ou de jovens com a ilusão de serem imunes. Esta é uma luta de todos.

O último grande elogio nos jornais estrangeiros a Portugal veio depois da fotografia do Presidente em calção de banho e polo, protegido por máscara e respeitador da distância de segurança, a fazer compras no supermercado. Que Marcelo sempre tenha sido assim, quando era professor universitário e comentador televisivo, que há anos costume ir a banhos em Cascais, devia fazer que nos sentíssemos orgulhosos de ver a genuinidade do Presidente, e também a segurança do país, retratada lá fora como algo natural, 100% verdadeiro. Mas logo se falou em eleitoralismo, desprezando aquilo que sempre dissemos admirar quando se passava na Escandinávia ou na Alemanha. (Lembra-se dos elogios a Angela Merkel por ir às compras na mercearia berlinense junto à sua casa?)

Não há que ter vergonha de gostarmos de Portugal. E é tão bom quando nos elogiam mais pelo que somos hoje do que pelas descobertas de há meio milénio, que foram uma epopeia, mais pela qualidade da governação (em sentido lato) do que pela arte dos golos de Cristiano Ronaldo.

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