Italianos, também heróis do mar

D. Fuas Roupinho, que destruiu uma frota muçulmana ainda no tempo de Afonso Henriques, é o nosso primeiro herói do mar, muito antes de Gil Eanes, Bartolomeu Dias ou Vasco da Gama. Mas é justo dizer que a marinha portuguesa só nasceu verdadeiramente quando D. Dinis chamou o genovês Manuel de Pessanha para transformar a vocação marítima do país num destino como nação. E a partir daí, 1317, durante pelo menos dois séculos, italianos e luso-italianos vários continuaram a nos ajudar a dominar os oceanos, nomes como Bartolomeu Perestrelo (filho de um tal Filippo Pallastrelli) ou António Noli, também o grande Americo Vespúcio, que deu nome ao continente que outro italiano, Cristóvão Colombo, descobrira em 1492 pensando ter chegado à Ásia navegando para Ocidente (foi Fernão de Magalhães quem finalmente o conseguiu, também ao serviço da coroa espanhola).

Ora, chega esta quarta-feira a Lisboa Amerigo Vespucci, o principal navio-escola italiano, também o mais antigo navio ao serviço de Itália. Que vai abrir portas aos portugueses. Uma excelente oportunidade para prestarmos homenagem a essa nação de grandes marinheiros, que ganharam fama muito antes da unificação italiana no século XIX como venezianos ou genoveses, senhores do Mediterrâneo, mas a quem o mar aberto também nunca meteu medo. Já falei de Perestrelo, sogro de Colombo, do próprio Colombo e de Vespucio, que também serviu Espanha. Devo falar também de Giovanni Verrazano, pioneiro a visitar o que é hoje Nova-Iorque (daí dar nome a uma ponte) quando trabalhava para o rei de França, ou de Giovanni Caboto, que ao serviço da coroa inglesa andou pelo Canadá e ficou conhecido com John Cabot.

E que dizer de Antonio Pigafetta, que pagou do seu bolso para poder embarcar com Fernão de Magalhães? Fez o italiano (de Vicenza) ele próprio a circum-navegação e deixou um relato que conta ao pormenor a expedição de 1519-1522, dando todo o mérito do êxito da passagem para o Pacífico e do seu cruzamento ao navegador português. Saudemos pois os italianos, também heróis do mar.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

Adelino Amaro da Costa e a moderação

Nunca me vi como especial cultor da moderação em política, talvez porque tivesse crescido para ela em tempos de moderação, uma espécie de dado adquirido que não distingue ninguém. Cheguei mesmo a ser acusado do contrário, pela forma enfática como fui dando conta das minhas ideias, tantas vezes mais liberais do que a norma, ou ainda pelo meu especial gosto em contextualizar a minha ação política e governativa numa luta pela liberdade.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.