A Europa cabe num café

Nunca estive em Vladivostoque, mas sei que se entrar num dos seus cafés sentirei estar na Europa. Já estive em Buenos Aires, no café Tortoni, e senti mesmo estar em casa. Alguns dirão ter sentido isso em Boston. Ou em Montreal. Assim, onde começa e onde acaba a Europa? Do Atlântico aos Urais, há quem diga como o slogan na moda a seguir à queda do Muro de Berlim, outros procurando respeitar o que mostram os mapas. Sabe a pouco.

E então, a Turquia é Europa? Beyoglu, no lado de cá do Bósforo, sim, mas Üsküdar, do lado de lá, a uns minutos de barco, já não? Arménia e Geórgia sim, mas Cazaquistão, com um pedaço de território tão grande como a Polónia do lado de cá dos tais Urais já não? E Chipre, tão perto da Síria, é Europa porquê?

Um dia George Steiner escreveu um belo ensaio a procurar nos cafés a alma da Europa. Lisboa, dos cafés de Fernando Pessoa, é por isso europeia com certeza, como o é a Odessa dos cafés de Isaac Babel. Mas porque não o é, cruzando o Atlântico, essa Buenos Aires dos cafés de Jorge Luis Borges? Ou Vladivostoque, cidade russa vizinha da Coreia, mais próxima de Pequim ou Tóquio do que de Moscovo?

Toda a Rússia, fique na Europa ou na Ásia, joga na UEFA. Tal como o Cazaquistão. E os clubes de futebol de Israel. Também na Eurovisão participa Israel, que neste ano até acolhe o festival, mais a Austrália. E esta, tal como a Nova Zelândia, faz parte nas Nações Unidas do Grupo da Europa Ocidental e Outros. Estranho? Não menos do que a Mongólia integrar a Organização Europeia para a Segurança e a Cooperação. Será bom o café em Ulan Bator?

Engana-se quem vê a Europa só como os 28, ainda contando o Reino Unido. A Europa é também a Islândia, a Noruega e a Suíça. Também a Sérvia. A Europa é a Rússia toda, a Turquia e o Cazaquistão por vocação. A Europa são também países distantes, sobretudo as terras que foram povoadas por gente que levou a tradição dos cafés e outras, uma certa cultura.

Do Atlântico a Vladivostoque, dizia o general De Gaulle. Eu, setubalense, um dia espero beber uma bica no Zuma, recomendado por um amigo russo.

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