Reaprender a olhar com Godard

João Lopes

E o melhor "filme" de Cannes/2018 dura 45 minutos e pode ser visto em diversos espaços da net, incluindo o site do festival, o YouTube ou o DailyMotion: é o registo da conferência de imprensa de Jean-Luc Godard sobre Le Livre d"Image (adquirido para o mercado português pela Midas Filmes). Num ritual revelador das maravilhas e ambiguidades do nosso mundo de imagens (e sons), Godard respondeu aos jornalistas a partir de sua casa, na Suíça, via telemóvel.

Que aconteceu? Nada que ver com uma celebração beata do fascínio tecnológico. Afinal, o dispositivo virtual (FaceTime, lançado pela Apple em 2010) é uma ferramenta que passou a fazer parte do dia-a-dia de muitos cidadãos. Para Godard, ainda e sempre um aplicado artesão, trata-se de saber se, através dos instrumentos de que dispomos, alguma comunicação passa ou pode passar. À maneira do ténis, como ele gosta de dizer: quando lançamos a bola, aguardamos a sua viagem de regresso...

Em boa verdade, Godard limitou-se a chamar a atenção para um facto corrente que, por distração ou cinismo, tentamos esquecer: falamos cada vez menos uns com os outros, iludindo-nos com o facto de falarmos para as imagens dos outros (facultando--lhes também as nossas imagens). O filme Le Livre d"Image constitui uma magistral lição sobre a perceção da história através de tal aparato audiovisual. Lição de olhar, sem dúvida, lição preciosa para pensarmos este planeta triste que transformou o Facebook na forma dominante de "comunicação".

Claro que a demagogia de cineastas como Nadine Labaki, explorando a "fotogenia" da miséria em Capharnaüm, se vende melhor nas plataformas noticiosas de todo o mundo (o que deixa em aberto a possibilidade de alguma reflexão jornalística sobre esse perverso poder de difusão). Ainda assim, alguns grandes filmes de Cannes partilharam a exigência "godardiana" de perguntar como são as imagens da nossa vida, como vivemos com elas e através delas - melhor ou pior, conhecendo ou ignorando o nosso semelhante.

Tal dinâmica marca, por exemplo, o prodigioso Black ​​​​​​​Klansman, do americano Spike Lee, centrado na experiência real de Ron Stallworth, um polícia que, em 1979, conseguiu infiltrar-se na organização racista Ku Klux Klan. Pormenor irónico, infinitamente cruel: sendo Stallworth um homem de pele negra (os seus contactos foram sempre feitos por telefone), a moral da história diz-nos que não será possível pensar o racismo sem ter em conta a sua existência enquanto política das imagens. Olhamos, logo fazemos política.