A televisão que as pessoas querem

A série televisiva "Sara" (RTP2) deixa uma colecção de ideias sobre as quais vale a pena continuar a reflectir - há mais mundos para além da telenovela

Com a passagem do oitavo episódio da série televisiva Sara (RTP2), concluiu-se a apresentação daquele que, a meu ver, é um dos objectos nucleares da nossa vida cultural nos últimos anos (entretanto, disponibilizado na Net, em rtp.pt/play). Em nome de uma muito básica objectividade, devo acrescentar que este meu juízo de valor é drasticamente minoritário no espaço mediático português - não é preciso grande esforço de investigação para reconhecer que a série exemplarmente realizada por Marco Martins não mereceu nem uma milionésima parte da atenção dedicada às mais recentes atribulações do país do futebol.

É assim o mundo em que vivemos - e, devo também reconhecê-lo, o mundo em que a maior parte dos cidadãos quer (ou é compelido a) viver. O desencanto de tudo isto pode levar-nos a experimentar sentimentos bizarros, entre a perplexidade e o sarcasmo. Leva-me a mim, pelo menos, em nome dos direitos do leitor/espectador (sobretudo aquele que não viu e ainda quererá ver o oitavo episódio de Sara), a avisar que as linhas seguintes revelam informações cruciais sobre o desenlace da série.

A personagem de Sara Moreno, uma actriz, mantém uma relação difícil com a solidão do pai, Henrique Moreno. E se é verdade que a Sara de Beatriz Batarda nasce de um admirável cruzamento entre a ligeireza e o trágico, não é menos verdade que importa celebrar a perturbante intensidade de António Durães na figura do pai - o seu silêncio, apenas quebrado pelos textos que vai dando à filha (retirados do romance A Máquina de Fazer Espanhóis, de Valter Hugo Mãe), expõe a secreta vibração de um luto radical pela mãe de Sara.

Entre as várias linhas narrativas que se vão resolver no oitavo episódio, há essa, simples e transparente, que provém do final do episódio anterior: Henrique pede a Sara que o ajude a morrer. Pois bem, no final do oitavo episódio, Henrique morre com a ajuda da filha.

Vivemos tão marcados pelas mais diversas formas de estupidez "social" (em rede, claro) que devo confessar o meu primordial pecado: face à comoção dos momentos finais de Sara, não consegui evitar pensar que, entre muita gritaria e milhares de links partilhados, a morte de Henrique através de Sara seria tratada no espaço público como mais um episódio do debate (?) em torno do enquadramento legal da eutanásia...

Fraqueza minha, sem dúvida. Claro que o gesto de Sara, seja qual for o efeito emocional que provoque em cada espectador, nada tem a ver com as delicadas questões suscitadas pela chamada "morte assistida". Além do mais, num país há quatro décadas dependente da cultura da telenovela, generalizou-se um violento menosprezo pelas singularidades da ficção. Ou seja: a mediocridade telenovelesca impôs mesmo a ideia (?) segundo a qual a fruição de uma narrativa audiovisual se reduz a um inventário de "prós" e "contras" das respectivas personagens. Para essa cultura da ignorância, convém mesmo evitarmos qualquer tipo de convivência com Macbeth e a sua Lady...

Acontece que a série Sara nem sequer é exactamente sobre a escolha moral da sua personagem central. Ou melhor, tal escolha surge enredada num fascinante labirinto narrativo em que o espectador é solicitado a entender as personagens na dupla condição de seres vivos imaginados e actores muito concretos. E porque Sara se transforma em estrela relutante do mundo das telenovelas, ao espectador realmente interessado compete percorrer e pensar a ambivalência visceral de qualquer acto de representação (teatral, cinematográfico, televisivo).

A esse propósito, vale a pena citar algumas palavras de Sara na cena, também do episódio nº 8, em que é convidada de um programa televisivo cuja apresentadora, Lúcia (interpretada, com cruel objectividade, por Filomena Cautela), a trata como bonequinha pueril e, literalmente, telecomandada. Ao lado de outra vedeta, João Nunes (numa magnífica composição de Nuno Lopes, também ele pleno de verdade e ironia), Sara não aguenta mais tanto fingimento e decide correr o risco de nomear as monstruosidades da ideologia telenovelesca.

Citando: "Esta novela não é muito diferente das outras - é uma merda. E não há necessidade de ser uma merda. Quando um actor se engana no texto, ou tropeça numa peça do décor, ou dá uma calinada no português, não há razão para não se repetir a cena. É importante repetir porque, repare, os actores não são máquinas, os actores não conseguem fazer trinta cenas por dia. As pessoas lá em casa também não são estúpidas, as pessoas gostam de uma boa história - qualquer criança gosta de uma história bem contada. Eu, pessoalmente, não suporto incongruências e inconsequências. Não faz sentido nenhum, num primeiro episódio, uma personagem ser apresentada como uma personagem que é alérgica ao bacalhau e, logo a seguir, está a comer alarvemente bacalhau porque alguém decidiu que uma marca de bacalhau ia patrocinar a novela - não faz sentido nenhum. Por exemplo, nas questões do sotaque, repare: o João Nunes apresenta-se como uma personagem que tem um sotaque transmontano e, logo a seguir, esquece-se e passa para um sotaque açoriano... e está tudo bem porque é uma quinta no Alentejo!"

Continuando a citar: "Eu não estou sequer a falar-lhe, Lúcia, das questões artísticas, ou das escolhas estéticas, ou da qualidade do produto em termos artísticos - eu estou a falar-lhe de uma história bem contada. Porque não há razão para as histórias serem assim, mixurucas, sob pretexto que é isso que as pessoas querem lá em casa... Mas o que é que as pessoas querem lá em casa? Como é que eu posso presumir saber o que é que vocês, aí em casa, o que é que vocês querem, do que é que vocês gostam? Se calhar a Lúcia quer ver outras coisas, as pessoas lá em casa se calhar querem ver outras coisas. As pessoas são todas diferentes, as pessoas não vêm num catálogo."

Fim de citação. Por mim, há várias décadas que considero que a telenovela instalou no audiovisual português uma dinâmica perversa, empobrecendo e formatando todas as suas instâncias, da produção aos modelos narrativos, passando pelas oportunidades criativas dos actores.

Ora, a importância de Sara não decorre de qualquer cumplicidade com a minha própria visão do problema - os seus criadores são seres pensantes, não necessitam da caução de ninguém. As palavras de Sara não se enraízam num ensaio crítico, seja ele qual for. São palavras de mágoa profissional e, acima de tudo, de reivindicação humana. E tanto mais quanto todos sabemos que, para além do seu imenso poder financeiro, o triunfo ideológico da telenovela tem como fundamental apoio essa chantagem intelectual que consiste em proclamar que "alguém" sabe o que as pessoas querem lá em casa...

Mais do que nunca, a defesa da diversidade televisiva tornou-se a maior urgência cultural do país. E é um sintoma dos nossos problemas o facto de tal defesa surgir, deste modo, enunciada por uma personagem de ficção. Os mais cínicos dirão que Sara Moreno não existe, precisamente porque não passa de uma personagem de ficção. Convém lembrar-lhes que a ficção não é o contrário do real, antes esse momento, eventualmente perturbante, em que descobrimos que contar histórias é algo que envolve as nossas formas de viver o real. Mais simplesmente: de viver.

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?