Metade da verdade

Está a ser enganado. Provavelmente já suspeita, porque a economia e o défice não podiam resolver os seus enormes problemas em tão pouco tempo. Além disso, esta é a terceira vez que vivemos uma prosperidade ilusória, primeiro com Guterres, depois Sócrates, agora Costa. É difícil cair de novo no mesmo sem notar. Este engano não implica necessariamente mentira. O truque é só mostrar metade do quadro, contar metade da história. O desastre, que no fim sempre remata o logro, vem da parte escondida.

Comecemos pela situação orçamental, indiscutivelmente a mais espectacular. Este governo conseguiu o défice mais baixo da democracia, ao mesmo tempo que repunha rendimentos. Parece um passe de mágica, de que o senhor ministro tem gozado largamente os aplausos. Mas estão as contas públicas realmente equilibradas? A parte revelada do quadro é vasta e verdadeira, mas só não seremos enganados se perguntarmos o que nos estão a ocultar.

O governo erigiu duas finalidades principais na estratégia: reduzir o défice e repor poder de compra, seja aumentando despesas em salários e pensões seja reduzindo os impostos sobre rendimentos. Bastam rudimentos de aritmética para saber que estes dois propósitos são contraditórios, e em contabilidade não há magias. O executivo tem levado ao extremo os expedientes criativos, mas estes, sem serem de desprezar, nunca avultam muito. Na falta de uma reforma séria do aparelho do Estado, que evidentemente não aconteceu, tem de haver um ardil camuflado.

Neste caso a resposta é óbvia: os cortes monumentais têm acontecido nas despesas, correntes e de investimento, de operação dos serviços. Os vários sistemas públicos têm trabalhadores aumentados, mas estão estrangulados no seu funcionamento. O dinheiro não é elástico; só se sobem salários e pensões cativando verbas. Isso vê-se, cada vez mais, da saúde aos incêndios, dos transportes às escolas, da segurança à cultura. Centeno reduziu o défice mantendo contentes as clientelas públicas, sacrificando as populações. Os sindicatos estão satisfeitos e ainda apoiam o governo, mas o Estado não funciona. E logo que vier um tropeço económico o défice explode, porque o problema financeiro público, se virmos o quadro completo, está longe de estar resolvido.

Se no orçamento se esconde metade do quadro, na economia conta-se só metade da história. A versão oficial começa com a terrível crise prévia, que tem como culpadas as exigências da troika e as políticas do governo anterior. Esquecem-se sempre as razões que motivaram essas exigências e essas políticas. Portugal estava falido em 2011, precisamente por causa do longo período de prosperidade aparente alimentada a crédito. O que significa que as condições antes da crise, que o governo agora pretende repor, são as que nos arruinaram. Não será possível retomar o nível de vida que tínhamos sem aumentar a produtividade, que aliás está a cair desde que este ministério tomou posse.

Interessante, também, é a forma como este embuste é conseguido, desta vez, a terceira, em condições muito diferentes. Guterres, nos anos 1990, tinha crescimento razoável, mas, gastando mais do que produzia, endividou o país, até à recessão de Barroso em 2002-2003. Sócrates, já sem crescimento que se visse, baseou o brilharete em puro endividamento, caindo na crise de Passos, muito pior. Agora há crescimento moderado, mas, dada a dívida astronómica, o endividamento ainda é limitado. A única solução é comer capital. Vendemos as melhores empresas a estrangeiros, o investimento líquido é negativo desde 2011 e deixamos decair o equipamento. Também aqui se sacrifica estrutura e produção para ir alimentando o consumo. Enquanto der.

O que tudo isto quer dizer é que, pela terceira vez na mesma geração, o país vive um período de falsa abundância que acabará mal no próximo solavanco nacional ou internacional. Nessa altura haverá muitas surpresas e acusações, mas esta recorrência mostra que a questão não se deve a ministros, estratégias, alianças ou percalços. O motivo tem de ser mais profundo.

Trata-se de um traço de carácter desta geração, que adoptou hábitos europeus com produtividade lusitana; tem exigências de rico e rendimento de remediado. Isto explica a paradoxal situação do país, muito melhor do que o atraso dos anos 1980, muito pior do que a imagem que tem de si mesmo. Lisboa é capital europeia, com o Terceiro Mundo dentro da porta. O país vive enorme desigualdade, resultante do contraste entre o luxo dos pavilhões municipais e a miséria dos munícipes, entre a vida dos protegidos de leis e sindicatos e a dos precários e desempregados.

Nisto os políticos são mais vítimas do que culpados. Os sucessivos governos há 20 anos tentam o equilíbrio impossível entre os polos do dilema. A única forma de manter o poder sem mentir é mostrar metade do quadro, contar metade da história. A conclusão tem de ser que estamos a ser enganados, mas, em grande medida, a culpa é nossa.

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