O mimimi de Bolsonaro

Publicado a
Atualizado a

Fernando Henrique Cardoso dedica a maior parte das 869 páginas dos dois volumes dos Diários da Presidência (Companhia das Letras, 2015) a descrever as dores de cabeça e os cabelos brancos que os caprichos, os humores e a insaciável cobiça do Congresso Nacional lhe causaram.

À época dos acontecimentos narrados, Lula da Silva era o maior opositor da forma de se fazer política em Brasília, criticando os clientelismos, os conchavos, os toma lá dá cá, as trocas de favores, de cargos, de orçamentos e de honrarias que faziam o pão nosso de cada dia do poder legislativo.

Mas chegado ao poder, no mínimo, avalizou o Mensalão, que foi a institucionalização da forma de fazer a política que antes atacara. E ainda apertou a mão, abraçou, bebeu whisky e fumou charuto com os intérpretes de tudo o que combatera. Questionado sobre a hipocrisia desses afagos, usou a frase que ainda hoje é uma aula de pragmatismo político: "Se Jesus Cristo fosse presidente do Brasil, aliava-se até a Judas".

Collor de Mello durou até perder as rédeas do Congresso. E Dilma Rousseff, anos depois, também: por ter mais pudor do que o mentor, recusou-se, por exemplo, a distribuir cargos a amigos de Eduardo Cunha, a tradução do que de pior Brasília produz, e acabou sabotada pelo então presidente da Câmara dos Deputados. O impeachment veio logo a seguir.

Apesar de não terem sido eleitos, Itamar Franco e, sobretudo, José Sarney e Michel Temer resistiram até ao fim dos seus mandatos porque dominavam os meandros de Brasília e as negociatas de bastidores. Os dois últimos são o que se pode chamar de uns grandes filhos da política.

Desde meados do governo FHC até perto ao fim do governo Temer, passeou-se pela Câmara dos Deputados um tal de Jair Bolsonaro. Um correspondente português chegado ao Brasil em janeiro de 2011 compreendeu em semanas como funcionava o sistema, será que em 28 anos esse deputado de baixo clero não entendeu o mecanismo da coisa?

É o que se depreende, pelo menos, do texto que partilhou no Whatsapp a um grupo de aliados, onde discorreu lamúrias sobre as dificuldades de governar num regime com separação de poderes e dominado pelos lóbis, grupos de interesses e influências que gravitam do Congresso - os tais lóbis, grupos de interesses e influências que nunca notou enquanto lá esteve por, repita-se, 28 anos.

Logo ele, que trocou de partido oito vezes nesse período.

Logo ele, que passou a maior parte desse tempo no PP, o partido mais visado da Lava-Jato (sim, mais do que o PT).

Logo ele, que instantes antes de dedicar o voto pelo derrube de Dilma a um torturador elogiara embevecido Eduardo Cunha, o tal que sabotara o governo dela e é, ainda hoje, a tradução do que de pior Brasília produz e o símbolo do Congresso dominado pelos lóbis, grupos de interesses e influências que ali gravitam.

E o mais irónico é que, logo ele, Bolsonaro, que passou a carreira de deputado a levantar a voz, sobretudo a mulheres, e de polegar e indicador esticados a imitar revólveres, acaba a fazer um "mimimi" - a expressão brasileira para queixume, choradeira.

Não só ele: o exército de idiotas úteis que o segue nas redes sociais, normalmente tão crítico do "mimimi" das mulheres que se queixam de machismo, dos negros e indígenas que se queixam de racismo e dos homossexuais que se queixam de homofobia, passou uma semana inteira a chorar pelos cantos porque o Congresso Nacional vem agindo como Congresso Nacional e não como as claques organizadas bolsonaristas a que está habituado.

Daí, organizou minuciosamente durante semanas uma, segundo o presidente, "manifestação espontânea" - a contradição dos termos "organização" e "espontânea" não o perturba, como não perturbava Odorico Paraguassu, prefeito de Sucupira, em O Bem Amado, de Dias Gomes.

Na verdade, o Congresso Nacional não para de realizar prodígios: derrubou Collor e Dilma, encheu FHC de cabelos brancos, obrigou Lula a abraçar o Iscariotes. E agora levou Bolsonaro a guardar a arma no coldre e prestar-se a um penoso "mimimi" público.

Diário de Notícias
www.dn.pt