Em impedimento

Eduardo Bolsonaro, um dos filhos travessos do presidente, ouviu uma declaração do diretor geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), editou-a na sua oficina de fake news e espalhou que Tedros Adhanom Ghebreyesus, afinal, está de acordo com o papai.

Horas depois, na conversa matinal que mantém com jornalistas e apoiantes malucos à porta do Palácio do Alvorada, Jair Bolsonaro, muito sorridente, vangloriou-se disso.

No seu discurso, Ghebreyesus defendera sem concessões o isolamento - "a única solução que temos" - e alertara para os problemas económicos que as populações mais carentes enfrentarão com a pandemia, pedindo às autoridades para garantir o bem-estar dessas populações.

Os bolsonaros, pai e filho, decidiram cortar a primeira oração e concentrar-se apenas na segunda. Dessa forma, interpretaram - e fizeram o gado que ainda os segue interpretar - a declaração do médico etíope como o reconhecimento da sua tese muito própria de que a prioridade deve ser a crise económica nem que para isso morram uns velhinhos pelo caminho.

E lá seguiram eles, felizes e confiantes, para mais um dia de trabalho na sua realidade paralela.

Jair Bolsonaro, cujo nome é uma homenagem a Jair Rosa Pinto, futebolista genial do Palmeiras, do Vasco da Gama, do Santos e de outros, parece cada vez mais um atacante que marca em fora de jogo (em impedimento, no Brasil), conforme a maioria do público, o árbitro auxiliar, o árbitro principal e o VAR constatam nitidamente, mas mesmo assim corre tresloucado para a bancada a festejar porque sabe que uma claque, igualmente alucinada, o abraçará aconteça o que acontecer.

Porque, além da OMS, também nove em cada dez líderes mundiais defende o isolamento nesta fase, incluindo o contaminado Boris Johnson e o desnorteado Donald Trump.

Mas Bolsonaro não é apenas um pária internacional: é também um pária nacional.

A maioria da população ignora-o olimpicamente, cumprindo as determinações de todos os 27 governadores estaduais para manter a quarentena.

Congresso e Senado e até os seus ministros mais populares, Sergio Moro, da justiça, e Paulo Guedes, da economia, fazem isolamento voluntário, associando-se a Luiz Mandetta, o ministro da saúde e símbolo do que resta de normalidade no executivo.

A justiça, entretanto, também já mostrou o que pensa do assunto. Dois juízes do Supremo Tribunal Federal anularam, em dias seguidos, dois inqualificáveis projetos do Planalto: o primeiro visava tornar o estado mais opaco, limitando a Lei de Acesso à Informação durante a pandemia; e o segundo castigar os mais pobres, com o corte de 158 mil beneficiários do programa Bolsa Família, enquanto o isolamento durasse.

Em seguida, um juiz de primeiro grau suspendeu a decisão bolsonariana de permitir que igrejas e cultos retomassem a atividade normal. Ainda no mesmo dia uma magistrada vetou uma campanha publicitária do governo paga pelos contribuintes a incentivar esses mesmos contribuintes a irem para as ruas trabalhar lado a lado com o coronavírus.

Para fazer coro com os tribunais, as redes sociais Facebook, Instagram e Twitter vetaram vídeos nas suas plataformas de Bolsonaro a passear-se pelas ruas, causando aglomerações, estimulando o regresso ao trabalho fora de casa e animando o povo a tomar a ainda não testada hidroxicloroquina para combater o vírus.

O presidente passou pela humilhação de ver aquelas empresas, tão importantes para a sua eleição, explicarem que removem todo o conteúdo no Facebook e Instagram "que viole os padrões de comunidade" e que "não permitem desinformação que possa causar danos reais às pessoas".

O povo fica em casa. Os governadores ignoram o governo e dão ordens à população pelo isolamento. O Congresso, o Senado e os seus principais ministros idem. A justiça contraria as insanidades do Planalto. E até as redes sociais o vetam.

Jair Bolsonaro está mesmo em fora de jogo, como se diz em Portugal. Ou em impedimento, como se diz no Brasil.

A propósito, na Inglaterra, impedimento, no sentido futebolístico, traduz-se por off side, mas no sentido político por impeachment.

Correspondente em São Paulo

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