Aquelas quatro notas

Pan pan pan paaam... Pan pan pan paam... Quatro notas límpidas - e todo um universo naquela ideia simples. Como uma pergunta lançada no ar, que se vai repetindo nos vários instrumentos de infinitas maneiras, aquele pan pan pan paam sucede-se numa escalada cada vez mais tensa, atravessa a orquestra, reinventa-se em timbres e alturas e, já à beira de não poder prosseguir, atinge um ponto de luz, e espraia-se no horizonte - para logo recomeçar. São talvez as mais famosas quatro notas do nosso imaginário musical, que as tornou suas de muitas maneiras: nas canções pop rock, no cinema, nos desenhos animados, no humor, e até na resistência à tirania. E se um cão chamado Beethoven nos faz sorrir, um cartoon nos arranca uma gargalhada e uma boa rockalhada à base das famosas quatro notas nos enche de pica (talvez não funcione para todos), a sua utilização na luta contra a guerra e a opressão não podia ser mais apropriada ao seu criador - Beethoven, claro.

O compositor de Bona, que se fez vienense, foi um revolucionário de alma e coração. Na música levou aos limites a linguagem do seu tempo e reinventou -a, e nas ideias foi um herdeiro do grito "Liberdade, Igualdade, Fraternidade". Talvez não seja tão conhecido, porém, o valor que as suas quatro notas mais famosas tiveram para as Forças Aliadas durante a II Guerra Mundial. Por causa do seu desenho rítmico, equivalente ao ponto, ponto, ponto, traço do morse, que é a letra V - V de vitória -, elas tornaram-se um secreto sinal de esperança durante aqueles anos negros. A partir de Londres, a BBC emitia com frequência a abertura da 5.ª Sinfonia de Beethoven, e um dos seus radialistas, o francês Maurice van Moppes, escreveu mesmo uma letra para aquelas quatro notas, das quais fez uma canção a que chamou La Chanson des V (A Canção dos V). Era assim a primeira estrofe: "Il ne faut pas/Désespérer/On les aura/Il ne faut pas/ Vous arrêter/ De résister/N'oubliez pas/La lettre V" (em tradução livre: "Não se pode/desesperar/Vamos batê-los/Não podem/parar/de resistir/Não esqueçam/A letra V"). A BBC emitiu-a para o outro lado do Canal, lembrando aos franceses e à Resistência que não estavam sós. No ano em que se cumprem 250 anos do nascimento de Beethoven, e numa altura em que o mundo se ensombra de novas tiranias, esta é uma história que nos dá alento. Celebremos, então, Beethoven.

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