Soletrem-no com respeito: Li Wenliang

A 30 de dezembro de 2019, Li Wenliang, médico do hospital central de Wuhan, capital da província chinesa de Hubei, advertiu alguns colegas. Ele era oftalmologista e talvez por isso dava conta e importância ao que via: sete trabalhadores do mercado local de marisco e animais esquisitos tinham sido internados.

E as análises revelaram um vírus parecido com o que ocasionou a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS). Já nos tínhamos esquecido (nós, o resto do mundo que não o Dr. Wenliang) mas a SARS foi uma epidemia mundial que matou cerca de 800 pessoas em 2003 e também teve origem na China. E esse vírus antigo, o coronavírus, fora passado aos homens por animais como os vendidos no mercado de Wuhan.

Nunca dá bons resultados aos iconoclastas com fundamentados argumentos colidirem com as fezadas dos poderosos que não querem saber.

Alguns anos antes, em 1632, Galileu Galilei, astrónomo, matemático, físico, enfim, um sábio italiano publicou Diálogo Sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo - o de Ptolomeu e o de Copérnico. O livro era a longa discussão entre o defensor da velha teoria de que a Terra era o centro do Universo e um adepto da teoria heliocêntrica, a de que o nosso planeta rodava à volta do Sol. Esta última teoria fora inventada pelo polaco Nicolau Copérnico e, embora o tivesse sido já há quase um século (em 1543), ainda era negada e perseguida pelos poderosos do tempo de Galileu. No seu livro, ao dar o tolo nome de Simplício ao defensor de a Terra ser o centro do Universo, Galileu mostrava bem que o seu lado era o outro. O da observação e da experiência, a da ciência que levava à verdade.

Tempos depois, num dos derradeiros dias de 2019, como já vimos, o Dr. Wenliang defendeu o que sabia pela observação e alertou para um possível novo coronavirus. Logo a 1 de janeiro de 2020, a polícia de Wuhan interrogou Wenliang, e sete colegas dele, sobre o caso do alerta de nova epidemia. Do alerta, que incomodava; não da nova epidemia, que ainda não incomodava. A CCTV, o canal televisivo estatal, noticia então que oito pessoas são acusadas de "difundir boatos". Omitindo, porém, que eles eram médicos, não fosse isso pôr dúvidas na necessária fé do povo em ser boato o que já era facto.

Tempos antes, em 12 de abril de 1633, Galileu foi também chamado à polícia. A sua era em Roma e chamava-se Tribunal da Inquisição. O livro dele sobre a Terra andar à volta do Sol era baseado sobre a observação e a experiência. E isso era tão iconoclasta como alertar para uma epidemia quando ela está ali e com sintomas parecidos com outra de idênticas circunstâncias. Sobre o assunto, a Inquisição tinha outra ideia, tão quieta como a Terra no centro do Universo, pois assim as Sagradas Escrituras ordenavam, e acabou a conversa. Nunca dá bons resultados aos iconoclastas com fundamentados argumentos colidirem com as fezadas dos poderosos que não querem saber. Galileu, velho de quase 70 anos, foi condenado. De joelhos, arrependeu-se do que escrevera.

As polícias, mesmo as com má fama, às vezes são generosas como as igrejas, mesmo as com má fama.

A 3 de janeiro 2020, o Lin Wenliang ouviu da polícia este requisitório: "O que você fez é ilegal. Publicou comentários mentirosos na internet. A polícia espera que agora colabore. Vai parar estes atos ilegais? Avisamo-lo: se insistir será perseguido pela lei. Compreende?" O Dr. Wenliang escreveu: "Compreendi", e assinou.

Galileu Galilei conhecia o fim de processo idêntico, que a Inquisição fez anos antes a outro herege contra a Terra estar quietinha com o Universo à volta: Giordano Bruno foi queimado na fogueira. Por isso, arrependeu-se publicamente. Depois, diz a lenda, Galileu sussurrou: "Eppur si muove", e, no entanto, ela [a Terra] move-se... A Igreja não deve ter ouvido e aceitou a desculpa. Ou, talvez, os iluminados brutais às vezes se cansem da fogueira.

Assinado o aviso da polícia de Wuhan, foi permitido a Li Wenliang voltar para o seu hospital trabalhar. As polícias, mesmo as com má fama, às vezes são generosas como as igrejas, mesmo as com má fama. A 10 de janeiro, Wenliang teve sintomas de ceder ao novo coronavírus. Ontem morreu.

A história repete-se, disse Marx, primeiro como tragédia, depois como farsa. Afinal, às vezes também começa com uma boa farsa (Eppur si muove) e acaba em tragédia.

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