Depois é o Pessoa que bebe...

Um dia, fui ao aeroporto da Portela despedir-me do professor Eduardo Mayone Dias, que regressava à sua Califórnia. Ele estava com uma bela senhora de olhos claros, a quem me apresentou: "É Teresa Rita Lopes, você sabe, a nossa pessoana." De Mayone Dias eu sabia, era o meu americano, desde o segundo dia que estive na América.

O meu primeiro dia americano eu dedicara-o, pelas ruas de Los Angeles, a uma missa pessoal, "américa, américa...", acho que eu a dizia assim, sem capitular, para saborear o tanto lá ter estado uma primeira vez, sem nunca antes ter estado. Uma página de Caldwell. A voz grossa e suave de Mahalia Jackson em igrejinha de Nova Orleães. O olhar da camponesa para o vestido solar de Natalie Wood que fora namorada - a namorada - do seu Warren Beatty, que já lhe fizera dois filhos, um deles ainda escondido na roupa encardida dos pobres da América da Depressão...

Uns emproados sem ré nem proa, a propósito de se dar o nome de Fernando Pessoa a um programa da CPLP, embarcaram na acusação de que Pessoa defendia que "a escravatura é legítima".

Se bem se lembram, no fim do filme, Natalie parte com um verso nos lábios que também ela soletrava em letras pequeninas, na sua missa pessoal: "Esplendor na relva ..." Inspirou um título de Hollywood mas antes foi a definição desse passado que, embora nunca possamos trazer de volta, será aquilo, dizia o poeta Wordsworth, que nos dará força pela vida fora. Não foi o que aconteceu a Natalie Wood, pensei eu, no molhe de Santa Monica, olhando o pôr do Sol no Pacífico, onde ela acabou em mistério e afogada. Os poetas são uns mentirosos, ou tão-só fingidores, com o dizia o outro.

No dia seguinte era o quê, 1990?, conheci Eduardo Mayone Dias. Eu tinha ido reportar sobre a comunidade portuguesa nos Estados Unidos. Não pude bater em melhor porta. Sábio e gentil. Com vida vivida - entrara de táxi pela fronteira improvável do México e calhou-lhe ensinar português, num quartel de Monterey, aos secretas americanos que iam ensinar os guerrilheiros da UPA a derrubar o colonialismo. Curioso - aproveitava qualquer noite passada em motel californiano a apontar os apelidos soando a português na lista telefónica local. Fez a carreira académica na Universidade da Califórnia, em Los Angeles. E, durante anos, foi cronista neste DN, contado os nossos primos da América.

Então, alguns anos depois, naquele encontro de aeroporto, Mayone Dias apresentou-me Teresa Rita Lopes, "você sabe, a nossa pessoana"... Eu só o sabia vagamente, literatura leio-a, raramente me socorro de especialistas de autores. De Teresa Rita Lopes, eu sabia-a catedrática de Literatura e estudiosa de Fernando Pessoa. Saber de ouvido, confirmado por gente que sabia mais do que eu. Leitor, repara como insisto no meu não saber? Pode parecer que faço gala em não saber, mas é mais do que isso: faço gala mesmo! Nunca é bom não saber, mas é muito importante saber que não se sabe. Isto tudo vem a propósito da estupidez da semana.

Uns emproados sem ré nem proa, a propósito de se dar o nome de Fernando Pessoa a um programa da CPLP para troca de estudantes entre países de língua portuguesa, embarcaram na acusação de que Pessoa defendia que "a escravatura é legítima". Daí, a conclusão superlativa absoluta simples: Pessoa foi "um acérrimo defensor do mais hediondo crime contra a humanidade: a escravatura". Foi? Foi assim noticiado. Eis o que eu não saberia contrapor, a não ser esta dúvida: sabem do que estão a falar quando estão a acusar? Se não sabem, porque não vão perguntar?

Ao longo desta semana, o DN foi escutar pessoanos. E não gente que pensa que Agatha Christie era adepta de envenenar vizinhos durante pacatos chás, como se poderia supor pelas dezenas de livros que ela assinou sem vergonha nem arrependimento. Nas edições online, o DN publicou vários depoimentos de estudiosos de Pessoa e, hoje, na edição em papel, da professora Teresa Rita Lopes. Leiam-na.

Não têm nada que me agradecer, é um prazer arejar cabeças por interposta pessoa que sabe mais.

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