Atenção, hoje há quotidiano!!!

Nuno Camarneiro escreve algures por aqui, DN. Ele escreve curtinho e fundo, é um escritor que se exilou no bairro dos Anjos para escrever, como antigamente fez Eça na diplomacia. Ele criou aqui, no DN, o quase diário A Voz dos Anjos. Fala do mundo, o seu, os Anjos, tão igual ao mundo à volta - da próxima Lisboa, Portugal, à longínqua Lisbon, Maine (USA).

Ontem, Camarneiro contou que o bairro dos Anjos foi atacado pelo choque de civilizações. É um conflito, disse o exilado, que se reconhece pelos sons plurais das rodinhas, conduzidas ou por velhos vizinhos com carrinhos de compras ou puxadas por jovens turistas e os seus trolleys à procura, por GPS, do seu quarto Airbnb. E ele disse que estas, as rodinhas dos turistas, já se fazem ouvir mais do que aquelas, as rodinhas dos costumeiros do bairro. A que armistício isto vai levar?, perguntam muitos. Outros, como Camarneiro, dão-nos contas do som das rodinhas.

Entretanto, por falar em Lisboa e Lisbon, soube-se também ontem - mas, aí, em todos os jornais portugueses - que duas americanas ficaram presas num elevador da nossa capital. Já no limiar do pânico, procuraram no telemóvel a emergência útil, na sua língua encontraram "Lisbon - Police", ligaram e foram atendidas... pela polícia de Lisbon (pop. 8883 almas, censo 2014), estado do Maine, Estados Unidos da América. Acabaram por ser salvas.

Da notícia e comentários encontrei de tudo, dos do costume, "isto só neste país", a um humorista: "No momento de pânico as babies americanas reagiram como Trump: America First." Mas em sítio nenhum li um ensaio (fosse ele de cinco linhas) sobre o extraordinário mundo novo que liga, em ida e volta, uma Lisboa a outra Lisbon, através do pânico numa caixa de elevador... Mais: confirmei o nenhum fascínio, só bocas de música de elevador, por esta história tão moderna.

Um dia destes, no meu bairro, encomendo para o lanche, dali a bocadinho, meia dúzia de pastéis de nata. E encaminho-me para a cozinha, bocejando, para receber os melhores pastéis de nata do mundo, que são, como se sabe, daquela pastelaria no Bund, Xangai. Desintegrados pela máquina de teletransporte na China, chegam-me quentinhos e quebradiços a Benfica... Irritar-me-ia o meu bocejo, não fosse eu saber que há antídotos para ele: há sempre um Camarneiro para me fazer olhar o dia-a-dia.

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