A fábula Barreiras Duarte

Pronto, já está: o secretário-geral de Rio caiu. Estamos contentes e saciados? Felizes com a nossa democracia, o nosso jornalismo, a nossa academia, a nossa justiça? Que bom.

Antes da atual polémica, só associava o nome do ex secretário-geral do PSD (demitiu-se enquanto escrevia este texto) a um episódio em que me causou boa impressão. Em agosto, numa altura em que o seu partido apresentava um candidato autárquico com discurso xenófobo em Loures, verberou duramente Passos por este, no último comício do Pontal, associar imigração a criminalidade e terrorismo e manifestar preocupação pela possibilidade de "qualquer um poder entrar em Portugal".

Numa articulada entrevista ao Expresso, Barreiras Duarte, que foi secretário com a tutela da Imigração em governos de Barroso, Santana e do próprio Passos, criticou aquilo que descreveu como "análises e proclamações políticas baseadas no achismo" e, afirmando que a atual política de imigração portuguesa é sobretudo fruto de governos PSD (o que pode ser contestado) e não advém de "visões securitárias", manifestou a sua preocupação por "agora o PSD, pelo que se percebe, também [ter] racistas e xenófobos, que pelos vistos têm apoios internos para defenderem essas posições". A uma pergunta direta sobre o discurso de Passos, respondeu: "Até mete dó a contradição e a incoerência de algumas pessoas que brincam com o fogo, ao abordarem de forma populista e generalista estas matérias, descurando potenciais efeitos de ricochete sobre os portugueses [emigrantes]." E manifestou a sua convicção de que "o PSD nunca foi, não é, nem deverá ser um partido político com discursos (e espero práticas) com tiques "trumpistas" e "lepenistas" (...) Porque, a acontecer, estará a hipotecar muito do seu futuro de partido político moderado, tolerante e humanista. E a acantonar-se na direita política retrógrada, caceteira, populista e oportunista. (...) Aliás, não deixa de ser curioso verificar a incoerência de pessoas que se têm assumido tão liberais, defensoras da sociedade aberta, do globalismo, da circulação de capitais e de empresas, e que nestas matérias são por um Portugal a preto e branco e fechado. O PSD nunca foi isso e no futuro deverá tudo fazer para combater isso."

Tive pois dificuldade em reconhecer a pessoa apresentada na entrevista como estando a fazer "um doutoramento sobre políticas de imigração" no autor de uma tese (ou relatório) de mestrado de 2014 escrita com os pés e na qual nem as dedicatórias escapam ao ridículo e ao péssimo português - sendo que, parece, a profusão de textos que tem publicado na imprensa (curiosamente sobretudo no Sol, onde saiu a primeira notícia sobre o caso Berkeley) padece de problemas semelhantes - e que, para meu espanto, terá sido valorada com 18. Quanto ao apresentar-se como "visiting scholar" de uma universidade californiana onde nunca terá posto os pés e com a qual não terá tido qualquer contacto académico nem consigo comentar, de tão patético.

Mas, confesso, se acho muito preocupante descobrir que existe um deputado, ex governante e alto dirigente partidário que alegou um estatuto académico a que não tinha direito e aparentemente não consegue escrever uma frase que faça sentido e com as vírgulas no sítio, assim como que uma tese nesses preparos tenha uma nota tão elevada, se considero tudo isso notícia, não posso deixar de anotar que todos estes factos têm anos e surgiram agora, por magia, nos media, quando Barreiras Duarte foi nomeado secretário-geral da direção de Rio.

E dessas evidências se retiram várias coisas, que estão longe de se ater à pessoa e caso de Barreiras Duarte. Uma é que o sistema de acreditação e de avaliação em algumas universidades portuguesas - e todos os escândalos conhecidos ocorreram com privadas --, é algo de inadmissível e que tem de ser resolvido. Outra é que os media funcionam demasiadas vezes como braço armado de interesses muito óbvios e repositório acrítico e assanhado de "campanhas", sem o mínimo de distância e reflexão. Por exemplo, onde é que vimos, nesta chusma de notícias, questionar a antiga direção do PSD, o ex PM e o ex ministro Miguel Relvas (do qual Barreiras Duarte foi secretário de Estado e que também teve um pequeno problema académico), sobre se sabiam alguma coisa sobre o que agora se revelou? Ou a universidade (a privada Autónoma) e o orientador, por acaso Diogo Leite de Campos, do PSD, sobre a qualidade daquela tese ou relatório ou que raio é? Porque é que o que é estrutural suscita tão pouco interesse e tudo se parece resumir a "demite-se ou não se demite", "cai ou não cai"?

Como se não bastasse o gritante de alguém ter colocado a questão Berkeley numa "pastinha" até dar jeito usá-la, lá voltámos a ver a PGR, depois do caso Centeno, a mergulhar de cabeça na refrega político-mediática. A que propósito correu a anunciar um inquérito? Qual o crime em causa, se a acusação de que o ex governante teria forjado um documento foi logo desmentida por quem acusou?

Entendamo-nos: é irresistível gozar Barreiras Duarte - eu própria o fiz no Twitter, analisando o seu quilométrico CV no site do parlamento e gracejando, entre outras coisas, sobre apresentar-se como conselheiro económico de um município chinês: "Põe no CV tudo o que apanha do chão". Mas uma coisa são piadas nas redes sociais, outra o jornalismo, a política, a justiça. Era bom poder distinguir.

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