Em que crê uma igreja que abusa de crianças?

A maioria dos padres nunca abusou de uma criança. Mas décadas (séculos?) de encobrimento - que está longe de acabar - fazem da igreja um instrumento de abuso.

Às vezes - muitas vezes se se faz o que eu faço, ser jornalista - sucede isto. Não ter tempo, não ter espaço suficiente para levar até ao fim um trabalho. Não poder colocar nele tudo o que lá devia estar. Continuar a pensar depois de o terminar, encontrar outras coisas para dizer, lamentar tudo o que se deixou de fora.

Sucedeu hoje com o texto sobre abuso sexual na Igreja Católica, publicado neste jornal. Ao fim de dois dias a ler sobre o assunto, a falar com pessoas, a acumular informação e perspetivas, tive de decidir que caminho seguia. O das perplexidades, da reflexão, da análise ou sobretudo o dos factos? Não são mutuamente exclusivos, claro, e o ideal seria conseguir aliá-los. Mas dei por mim atordoada - roubo as palavras a um entrevistado - com acontecimentos de cuja dimensão total não me dera conta. E escolhi tentar dar testemunho desse atordoamento, desse fluxo contínuo de notícias e revelações que esse sacerdote me enumerou. Fazer um mapa, um ponto da situação. Mostrar onde estamos.

Fi-lo sobretudo por constatar que tanta gente vê o relatório tornado público na terça como algo de inédito; aliás o próprio relatório contribui para tal, ao dizer que nunca houve outro com a sua escala. É típico dos americanos ignorar o resto do mundo e da contemporaneidade apresentar-se cada coisa que aparece ou sucede como a primeira de sempre, a maior de sempre, a mais grave de sempre. Ora o que me pareceu, tendo memória, aliás favorecida pelo visionamento recente O Caso Spotlight - filme de 2015 sobre a série de investigações de 2002 do Boston Globe que expuseram décadas de abuso sexual de menores por padres católicos e o seu encobrimento pela hierarquia -, de revelações sucessivas, em vários países, da Irlanda à Austrália, sobre a dimensão devastadora do abuso sexual de menores em e por instituições católicas, foi que se tratava, horrivelmente, de mais do mesmo. E que o risco maior é mesmo o de olhar para este documento e as suas horríveis histórias como algo inédito, algo para analisar e discutir como ponto de partida para qualquer coisa.

Não é. Porque o que este documento nos diz é que apesar de todos os certificados de transparência e de mudança e de respeito pelas vítimas, de fim do encobrimento e do silêncio, de vergonha e contrição, há milhares de histórias por contar, milhares de vítimas por reconhecer. E isto nos EUA, o país do escândalo de Boston, que com todos os seus defeitos são uma democracia com um sistema judicial eficaz, com uma sociedade civil fortíssima e jornalismo robusto. Que se dirá do resto do mundo? Que se dirá da América Latina, da África, da Ásia? Que se dirá de Portugal?

Haverá, claro, quem se conforte na exiguidade de casos relatados em Portugal. Mas esse facto deve, longe de sossegar-nos, aterrorizar-nos. Porque isso só pode significar que cá o encobrimento foi muito mais eficaz e a falta de transparência muito maior - e continua.

Países houve nos quais foram lançados pelo Estado investigações e inquéritos, a nível nacional, sobre abuso sexual de menores: Irlanda, Austrália, Reino Unido - onde está a decorrer, dirigida por um organismo criado para o efeito por May enquanto ministra do interior, uma série de investigações sobre abuso sexual em várias instituições, sendo uma delas a Igreja Católica. Mas estes países são uma minoria. E isso é incompreensível.

Haverá, claro, quem se conforte na exiguidade de casos relatados em Portugal. Mas, sabendo-se hoje o que se sabe sobre as orientações informais da hierarquia sobre a matéria, o verdadeiro "livro de estilo" criado para o encobrimento, esse facto deve, longe de sossegar-nos, aterrorizar-nos. Porque isso só pode significar que cá o encobrimento foi muito mais eficaz e a falta de transparência muito maior - e continua.

Não sou católica, pelo que não me cabe apelar aos bispos portugueses para que examinem as suas consciências e prioridades, nem aos crentes para que exijam a abertura dos arquivos. É como cidadã do país que exijo que Portugal faça o que tem de ser feito. Porque aquele horror exposto no relatório da Pensilvânia não é doutro planeta, doutra espécie; é nosso.

Uma das vítimas da Pensilvânia diz, numa entrevista, "era Deus que me estava a fazer aquilo". Não perguntarei como poderia uma divindade, a existir e como divindade saber de tudo e poder tudo, permitir tal; não é discussão que me interesse. Mas pergunto que congregação, que organização, que religiosos, que pessoas são os que convivem com isto, e se é possível que acreditem em mais alguma coisa que não em si, no seu poder e no que ele lhes permite.

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