O espetáculo não pode parar

A Sophia voltou à Web Summit para se confessar mais humana do que dizia. E o jornalista do Público, decidiu atribuir à desconstrução do mito da sua inteligência artificial, um atributo humano. Escreveu que teve uma presença humilde, por contraste com as suas aparições anteriores, afinal golpes publicitários de arrogância, não do robot, mas dos que andaram a promover este chatbot como algo bastante mais avançado e independente do que aquilo que realmente é.

Muita gente de todo o mundo veio ver o espetáculo em que a Sophia é uma das atrações. A Web Summit conseguiu gerar um ambiente quase místico à sua volta, tem um marketing poderoso, capaz de nos convencer que é um grande fórum de reflexão sobre o futuro, quando no essencial é uma grande feira de um setor de atividade, financiada pelo product placement, ingressos inflacionados, merchandising levado ao extremo e contratos com entidades públicas de dimensões avultadas. Que entre os seus heróis deste ano estejam Edward Snowden e o advogado de Julien Assange ao lado de Tony Blair diz tudo sobre a natureza do terreno em que os apocalípticos jogam em casa dos integrados, para sucesso destes, são aplaudidos e ajudam um capitalismo assente em modelos de negócio do século XIX a triunfar com as tecnologias do século XXI.

Lisboa ganha em ter cá a Web Summit. Ela é um sucesso comercial e turístico, com efeitos de arrastamento na economia nacional. Quem trabalhou para a trazer teve visão. Como dizia o ano passado João Vasconcelos ao Dinheiro Vivo, ela é a melhor maneira de Portugal se mostrar ao mundo. Esta foi a primeira vez que esse grande obreiro da sua vinda e sobretudo da sua permanência, lá não foi. Li, em notícia de antecipação do evento, que lhe estaria a ser preparada uma homenagem, merecida. Peço, pois, licença para aqui lembrar o João e ir buscar à Sophia, aquela que nunca teria que ir a lado nenhum confessar-se humana e nunca teria a sua humanidade confundida com humildade, palavras de memória.

Sophia, a humana, escreveu e reproduzo a pensar em ti, João, que "em nome da tua ausência/construí com loucura uma grande casa branca/e ao longo das paredes te chorei". A tua morte, João, choro-a pela tua generosidade como pessoa - nem sequer fomos amigos íntimos, embora amigos verdadeiros - e pelo teu pragmatismo como empreendedor. Espero que alguém na feira tenha chorado por ti, também, porque o merecias.

A mim o João não precisou nunca de promover a web summit e sobretudo a extensão do contrato para a sua permanência com os argumentos provincianos que vejo repetidos à saciedade, bastou-lhe invocar um simples cálculo económico - cada edição tem um retorno para o país infinitamente superior ao festival da canção e se todos se excitaram por trazer um festival da canção, como não querer dez? Dois acontecimentos com a mesma profundidade, diria eu. Como argumento, era mais que suficiente. Quanto ao resto siga a dança, se a homenagem ao João Vasconcelos ficou no tinteiro ou só não foi notícia, siga a dança, que o mundo high tech não é conhecido por ser espaço em que se perca grande tempo com considerações sobre sentimentos humanos.

Nisso não se diferencia da política, atividade a que João Vasconcelos também dedicou uma parte da sua vida. Não é possível estabelecer qualquer ligação direta entre o modo como saiu do Governo e a sua morte. Mas, em nome da cínica doutrina que domina as relações entre a política e a justiça em Portugal, bastou a suspeita, uma simples constituição de arguido, para que a experiência política de João Vasconcelos e dois outros colegas terminasse, eles se sentissem compelidos a abandonar os seus lugares no governo e o chefe do dito aceitasse a sua saída, sucumbindo a uma máxima de que à justiça o que é da justiça, que tendo sido boa quando referindo-se à separação de poderes, hoje apenas esconde a cobardia dos políticos face ao frequente conluio em fases processuais precoces entre acusação e media.

A saída de João Vasconcelos do governo merecia ser ensinada em cursos de política e faculdades de direito, porque consuma a inversão total da separação de poderes em que vivemos. O estatuto de arguido, justamente criado para proteger um suspeito, foi aceite como fundamento suficiente por um governo para perda de condições de exercício de funções. Sem cuidar sequer de analisar dos méritos da causa da parte acusadora - e chamo-lhe assim porque já vi o Ministério Público em ação vezes suficientes para saber que não busca a verdade, como magistratura independente, mas a demonstração das suas teses, mesmo que sejam só hipóteses, meras conjeturas ou até raciocínios contaminados por imaginações que mereciam análise de como se formam.

A entrada da Web Summit em Portugal também merecia ser ensinada, mas em cursos de gestão e marketing, porque é um exemplo acabado de como uma iniciativa privada de sucesso pode hoje jogar com os poderes públicos para os seus interesses comerciais.

O João Vasconcelos trouxe-nos este magnifico show porque queria apoiar Portugal e foi levado da política senão da vida por um eventual pecadilho futebolístico em que tinha a mesma intenção, apoiar Portugal. Mas, em ambas as dimensões, o espetáculo não pode parar.

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