"Who is America/ This is America"

Philip K. Dick (1928-1982), escritor norte-americano do género dito de ficção científica, foi um dos mais importantes escritores de qualquer género do seu tempo. Podemos dizer - do nosso tempo, porque a sua obra, os temas da sua obra não podiam estar mais presentes. A sua capacidade de antecipação, não necessariamente científica, daquilo que é o mundo e a sociedade contemporânea hoje faz dele um extraordinário visionário da "forma das coisas por vir".

As questões da perceção da realidade e da incerteza da sua definição e dos seus simulacros; das realidades alternativas e dos estados alterados de consciência; da memória e das suas falsificações e manipulações; dos poderes ou corporações autoritárias e opressoras e dos seus agentes repressivos; das fronteiras entre humanos e máquinas, entre o que é artificial e o que nos faz ser humano: estes são os temas que, obsessivamente, estão presentes em toda a sua obra, em inúmeras variações distópicas que interpelam de uma forma cada dia mais inquietante o nosso presente.

P.K.D. viveu praticamente toda a sua vida numa Califórnia de subúrbio, da cultura do consumo e do lixo, como uma metáfora da existência nesses anos, do princípio da década de cinquenta ao fim da década de setenta.

Teve uma vida emocionalmente atribulada. Nasceu prematuro, tal como a sua irmã gémea, Jane, que morreu com seis semanas de vida, alegadamente por falta de cuidado maternal. Algo que o atormentou durante toda a vida. Os pais separaram-se tinha ele 5 anos e ficou a viver com a mãe.

Casou cinco vezes, teve três filhos de diferentes mulheres.

Foi um consumidor compulsivo de drogas e alucinogénios de todo o tipo, teve um historial de alucinações, transtornos mentais e tentativas de suicídio.

Escritor prolífico, publicou 44 romances (novels) e mais de 120 contos. Mas viveu sempre à beira da pobreza e nunca foi reconhecido em vida, para lá do círculo da ficção científica, que o premiou. Ainda assim sem que isso melhorasse consideravelmente as condições de publicação dos seus livros, que continuaram a ser mal pagos e editados em editoras menores.

Já não é o cinema nem a televisão que estão a adaptar os livros de Philip K. Dick. É a realidade, e está a fazê-lo em larga escala.

Em 1968 é publicado Do Androids Dream of Electric Sheep?, hoje o seu romance mais famoso, por causa da adaptação ao cinema, que deu origem a Blade Runner, filme de Ridley Scott, uma obra-prima.

P.K.D. morreu na sequência de um AVC, em 1982, sem ter chegado a ver a versão final de Blade Runner (terá visto apenas umas cenas). Nem chegou a ver as inúmeras adaptações de contos e romances seus ao cinema e à televisão, que o viriam a consagrar como o mais influente autor de sci-fi de todos os tempos, simultaneamente o de maior culto e o mais popular.

Foi sepultado ao lado da sua irmã Jane.

Ao olhar para o mundo e, em particular, para os EUA de hoje, não podemos deixar de nos lembrar do universo de Philip K. Dick.

"A vida não imita a arte. Imita a má televisão", disse Woody Allen.

Trump imita a má televisão. Trump é má televisão. Mas a América de Trump, a América que o elegeu, esta América, já estava na literatura.

Não na literatura do cânone literário americano, mas na literatura trash de Philip K. Dick. Et pour cause.

A escrita de P.K.D. é excessiva, demente, alucinada. E a sua obra é irregular, desequilibrada, desigual. Mas, de uma forma paradoxalmente consistente e incrivelmente visionária, a América de hoje já lá está.

De livro para livro, de forma obsessiva, estão lá antecipados os topos e temas que hoje nos confrontam. Desde logo, a manipulação da "realidade", o poder das corporações, as conspirações obscuras, a alienação, a intoxicação, a deriva moral, existencial, emocional...

Trump é uma personagem dickiana (até no duplo sentido em inglês) e o seu mundo é uma trama de um livro perdido de Philip K. Dick.

Damien Love, crítico de TV do Sunday Herald, um jornal escocês, já o tinha sinalizado logo no momento da tomada de posse:

"Presidente Trump: A Inauguração. 4 pm, BBC One/STV."

Depois de uma longa ausência, The Twilight Zone regressa com uma das mais ambiciosas, caras e controversas produções da história das emissões broadcast. Os escritores de sci-fi têm lidado frequentemente com histórias da história alternativa - a mais comum das quais é a hipótese ""E se os nazis tivessem ganho a Segunda Guerra Mundial?" - mas este gigantesco projeto interativo de realidade virtual, que se desdobra na TV, na imprensa e no Twitter pelos próximos quatro anos propõe-se construir um presente alternativo permanente. A história começa numa versão de pesadelo de 2017 na qual enormes secções do eleitorado dos EUA foram de alguma forma levadas a votar em Donald Trump para presidente. Soa forçado, e é, mas à medida que avança vai ficando mais assustadoramente plausível..."

A referência aqui é ao The Twilight Zone, mítica série que em Portugal passou com o título A Quinta Dimensão, mas este é um universo Dickiano.

Numa outra novela de Dick, A Penúltima Verdade, um homem que estava com uma população há mais de uma década a viver num abrigo por causa de uma guerra atómica descobre que a guerra já tinha terminado há anos e era mantida por um sistema de propaganda que emitia discursos forjados de um presidente falso, fake. Depois, como sempre, the plot thickens.

Já não é o cinema nem a televisão que estão a adaptar os livros de P.K. Dick.

É a realidade, e está a fazê-lo em larga escala.

A citação do primeiro parágrafo é The Shape of Things to Come, H.G. Wells, 1933.

O título desta crónica é uma combinação do título da nova série de televisão de Sacha Baron Cohen e de uma canção de Childish Gambino. Ambos interpelam de forma contundente a América Contemporânea.

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