Cem Anos de Confusão

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o avançado Carlos Bacca havia de recordar aquela tarde remota em que o pai lhe garantira que a Inglaterra nunca ganha nos penáltis. Tempos houve em que tal crença fazia parte do nosso repositório colectivo de verdades eternas e incontestadas (e portanto bonitas). Mas isso foi antes deste tempo, do nosso tempo, a que os historiadores e místicos do futuro, se forem honestos, serão obrigados a chamar qualquer coisa como A Grande Tribulação de 2018. Há seis inocentes meses, um burocrata do Ministério da Agricultura Russo profetizou uma praga de gafanhotos durante o Mundial. Teve piada, na altura, antes de sermos submetidos ao equivalente futebolístico de um temporal de batráquios, rios contaminados com sangue, um genocídio de primogénitos.

Pode parecer uma reacção excessiva a uma noite que, no fim de contas, se limitou a assinalar a passagem da Inglaterra aos quartos-de-final depois de uma vitória no desempate por grandes penalidades. Mas nenhuma da tenebrosa informação contida na frase anterior devia ter lugar num universo racional. A terceira semana de um importante torneio internacional não serve para encarar a possibilidade de a selecção inglesa ter apenas a Suécia, a Croácia ou a Rússia entre si e uma final; serve, historicamente, para assassinatos de carácter em tablóides, para reportagens sobre os implantes capilares secretos de Wayne Rooney, para debates de duas horas na BBC subordinados ao tema "Podem Lampard e Gerrard Jogar Juntos No Meio-Campo?" ou para editoriais circunspectos no Telegraph com o título "Devemos Limitar o Número de Estrangeiros na Premier League Para Proteger A Integridade do Futebol Inglês?". Serve, em suma, para confirmar quais os protagonistas do próximo anúncio da Pizza Hut.

Quanto ao jogo em si, só não desiludiu na medida em que foi a abominação esperada - conseguindo a proeza de ser em simultâneo tão caótico como o Argentina-França e tão aborrecido como o Croácia-Dinamarca.

Até Novembro de 2016 (altura em que foi nomeado seleccionador pela Federação Inglesa) quando se introduzia o nome "Gareth Southgate" no google, uma das sugestões automáticas de pesquisa era "Gareth Southgate Pizza Hut", uma justíssima homenagem algorítmica a um anúncio que passou nas televisões inglesas em 1996, semanas depois de Southgate ter falhado o penálti decisivo nas meias-finais do Europeu. No anúncio, os ex-internacionais Stuart Pearce e Chris Waddle, também eles reputados mártires das grandes penalidades, sentados numa pizzaria, tentavam convencer um terceiro amigo a provar uma nova especialidade. O amigo tem um saco de papel enfiado na cabeça para não ser reconhecido. Antes de levar a fatia a boca ("uma base fofa, generosamente coberta"), retira o saco. É Southgate. Que, antes de o anúncio terminar, ainda é filmado a chocar de frente com uma coluna. E chocar de frente com uma coluna, na forma de um poste ou de uma trave, tornou-se a metáfora dominante para o percurso inglês no futebol internacional durante as gloriosas décadas de paz e tranquilidade que ontem chegaram ao fim.

Quanto ao jogo em si, só não desiludiu na medida em que foi a abominação esperada - conseguindo a proeza de ser em simultâneo tão caótico como o Argentina-França e tão aborrecido como o Croácia-Dinamarca. À excepção de uma impaciente fase de estudo inicial, em que a Colômbia, confrontada com um estereótipo anómalo, procedeu a constantes reajustamentos ideológicos (começou ingenuamente por apostar duas ou três vezes em transições rápidas, antes de perceber que a Inglaterra tinha pelo menos uma pessoa em cada sector capaz de correr mais depressa do que todos eles), a partida foi um espectáculo de gradual desintegração: quase duas horas que pareceram durar cem anos, recheados de incidente, acidente e peripécia - sem qualquer fio condutor. Comparado com os cerebrais duelos de tabuleiro em que alguns jogos decisivos tendem a transformar-se, o Colômbia-Inglaterra foi a Batalha de Estalinegrado: uma magnífica barafunda de empurrões, simulações, semi-agressões, acelerações, escaramuças de rua e combate corpo-a-corpo pela conquista de dez metros livres de terreno, onde pessoas jovens e cheias de saúde e vitalidade pudessem correr desalmadamente até esbarrarem na competência defensiva mais próxima. Quase era possível imaginar onze confortáveis suecos a esticarem-se em espreguiçadeiras na piscina de um hotel.

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