Auschwitz-Birkenau (uma história pessoal)

Setenta e cinco anos após a libertação do campo de extermínio nazi de Auschwitz-Birkenau, a data está a ser comemorada em Israel, na Polónia e noutros lugares, e as memórias do Holocausto tornaram-se, mais uma vez, um tema de conversa. Nesse 27 de janeiro, 75 anos atrás, o Exército Vermelho Soviético entrou no campo abandonado, onde permanecia apenas um pequeno número de prisioneiros, aqueles que não acudiram à chamada dos seus captores para saírem dos seus alojamentos e deixarem o campo juntamente com eles. Nem mesmo as ameaças do exército alemão de fazer explodir o campo antes da chegada das tropas soviéticas convenceram essas pessoas a abandonar a área, sabendo que a palavra nazi não tinha qualquer valor.

Entre esse grupo de almas famintas e torturadas estava Suzana, a minha mãe. Ela nunca falou muito sobre esses acontecimentos comigo e com o meu irmão. Só ouvíamos pedaços do seu destino horrível quando apareciam em conversas sobre alguma coisa completamente diferente no conforto da nossa casa. Ainda hoje, não tenho uma imagem clara de tudo o que aconteceu com a minha mãe naquele campo em que mais de um milhão de pessoas foram brutalmente assassinadas, punidas apenas pela sua origem, pelas suas crenças religiosas e nada mais.

O filho de 5 anos da minha mãe, o meu meio-irmão Andrija, e o seu pai Fridrich também foram levados para o campo. Eles foram mortos no dia da sua chegada em abril de 1944, transportados diretamente da estação de comboio para as câmaras de gás. Na entrada do campo estava Joseph Mengele, que selecionava participantes para as suas experiências. Ele selecionou a minha mãe e a enviou-a para um dos barracões, escolhendo-a pessoalmente e sem qualquer emoção enquanto dividia e despedaçava a sua família definitivamente.

Muitos anos depois, uma comissão alemã, após um exame médico, concedeu à minha mãe o estatuto de vítima de experiências in vivo. Talvez esse reconhecimento tenha sido a única satisfação que a minha mãe pôde obter dessa vivência, além do colapso da Alemanha nazi.

O soldado soviético que a encontrou debaixo da cama num dos barracões do campo, a 27 de janeiro de 1945, nunca saiu da sua memória como algo inesperado, tendo ela a certeza de que nunca deixaria viva aquele local. Depois de ter sido resgatada, os médicos da Cruz Vermelha examinaram-na e concluíram que ela não viveria por muito tempo. Disseram ao oficial russo que era inútil levá-la a Nuremberga como testemunha, pois ela não viveria para assistir aos julgamentos.

A minha mãe faleceu por causas naturais em dezembro de 1996 na sua cidade natal, Novi Sad, na Sérvia. Após a sua libertação, ela voltou a casar-se, teve uma nova família com dois filhos, fazendo sempre o possível para não sobrecarregar ninguém com a sua tragédia pessoal. Ela gravou as suas memórias para os arquivos Yad Vashem, enquanto uma tatuagem do número A-8806 permaneceu apenas para que não esquecesse Auschwitz cada vez que olhava para o braço (ela gostava de usar mangas curtas).

A minha mãe era judia e pagou um preço muito alto por isso.

Se eu colocasse no papel tudo o que ela nos contou sobre o campo, acho que isso não equivaleria a mais de uma página. Sem detalhes, sem comentários amargos e sem sinais de raiva. Quando cresci, percebi que ela fazia isso para evitar sobrecarregar-nos com a sua dor para a qual não havia cura. Percebi que ela era forte, muito mais forte do que alguém poderia imaginar apenas olhando para ela. Mas ela também se manteve escondida atrás de um muro alto ao recusar-se a reviver essas experiências contando a sua história, algo que poucas pessoas conseguiram fazer. Uma coisa que ela disse foi que nunca acreditou que viesse a sobreviver ao tempo que lá passou. Nunca

Escrevo isto hoje porque a memória do Holocausto, como foi vivida pelos seus sobreviventes, está a desaparecer. Eles já são muito velhos, muito poucos e as suas vozes estão a ser lentamente abafadas pelas dos políticos e pela nova e recorrente retórica do ódio. Esses mesmos políticos estão a travar uma guerra de palavras, acusando-se mutuamente de iniciar a guerra e criando, assim, novas divisões entre países que sofreram imensamente, mas cujos cidadãos também participaram na perseguição aos inocentes. E, assim, pode dizer-se que as memórias do Holocausto estão a ser lentamente substituídas por negações sobre o papel dos perpetradores locais que ajudaram ativamente nos crimes. Os sobreviventes do Holocausto, por outro lado, assim como as vítimas, nunca alcançarão a paz com base em discussões e acusações, apenas o conseguirão com base em algo completamente diferente.

A palavra mágica é tolerância. A minha mãe ensinou-me isso com o seu exemplo. Ela rejeitou qualquer forma de exclusividade, generalização ou nacionalismo e, ao fazê-lo, encontrou forças para começar e viver uma nova vida. Sem tolerância, ela ter-se-ia afundado na dor e em memórias terríveis que nunca lhe permitiriam sorrir novamente. E ela gostava de sorrir.

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