Um debate com muita contabilidade e pouca inspiração

António Costa ganhou o debate desta segunda-feira? Duvido. Rui Rio? Idem. É bem provável que ambos tenham perdido - porque não o jogaram no campo certo. Este era um debate generalista para convencer indecisos, desinteressados, os que estão a equacionar não votar, que não sabem em quem votar, que não veem nenhum interesse em votar. São esses que vão decidir as eleições. Os que podem dar ou tirar a maioria ao PS, os que podem não tornar a provável derrota numa vergonha para o PSD.

E esses não são a elite empresarial nacional, nem os jornalistas que comentam a seguir ao debate - ou os que o conduzem - para quem Costa e Rio falaram. Os outros, os que fazem a massa dos que votam, a maioria da população nacional, são, dizem as estatísticas, os que vivem a tentar chegar ao fim do mês. Os que não sabem o que é um factor de sustentabilidade, embora sintam que têm de trabalhar cada vez mais para chegar à reforma. É gente feita de carne e osso e vida para além dos défices e dos PIB"s.

Pregar para convencidos é fácil, são os que enchem comícios e arruadas, inundam caixas de comentários e seguem debates ao minuto. Os outros precisam de mais. Precisam de inspiração, ideias, e até, quem sabe, ideologias - já foram tantas as que mudaram o mundo, porque não?

E o que lhes deram os dois líderes partidários que disputam o cargo de primeiro-ministro nestas eleições? Números. Palavras caras sobre economia. Rio: "o Orçamento continua a ter um défice estrutural. Melhorou o nominal mas não o estrutural. (...) "A receita fiscal cresceu muito mais do que o produto [interno bruto]" Costa: "A estabilidade da Segurança Social aumentou 22 anos. (...) O investimento público vindo do Orçamento aumentou 45% nestes quatros. (...) A limitação [proposta pelo PSD] nos consumos intermédios do Estado significa um corte brutal de asfixiamento no SNS."

A vida real irrompe pela bolha política de quatro em quatro anos. E é tão bem aproveitada por quem não tem as armas do poder, mas precisamente por isso o ataca.

Foi assim que falaram, juro, não é invenção. Até para falar de saúde, foi números e indicadores que usaram. Como se as eleições de outubro fossem para eleger o contabilista mor da nação. Sendo Rui Rio e António Costa dois sociais-democratas, mais coisa menos coisa, e estando ambos, sabemos todos, a jogar ao centro, que interesse têm em mostrar-se onde são mais iguais e menos onde poderiam marcar essa diferença?

Sendo assim - quem ganhou, quem perdeu? Tendo lido e ouvido alguns comentários desde ontem à noite, dá ideia que Rui Rio teria tido alguma superioridade, senão nas ideias, pelo menos na atitude demonstrada. Parecem ser conclusões precipitadas: sabendo-se que a economia não é um assunto que preocupe muito os portugueses neste momento, assim o dizem as sondagens, enfrentar António Costa nesse campo é partir em clara desvantagem, e Rui Rio, por muito sábio e contabilista que seja, devia sabê-lo. Mas, por outro lado, para António Costa, a quem parece faltar um bocadinho assim para a tão desejada (por ele) maioria, não falar para as pessoas, para a classe média que não andou nos MBA, mas cuja noção de economia é a da vida, pode ser fatal.

Ambos, políticos suficientemente experimentados para saberem que o mundo está estranho, que as lutas que movem as pessoas são outras - dos animais ao ambiente - jogaram um jogo perigoso. O da desconexão com a vida real - essa que irrompe pela bolha política de quatro em quatro anos. E que é tão bem aproveitada por quem não tem as armas do poder, mas precisamente por isso o ataca. Resta-lhes esperar que outros não aproveitem o passo em falso.

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