Joker, dos Óscares à política

Joker é anticlinteastwoodiano. Onde o velho realizador põe a responsabilidade individual, este é um filme sobre a vitimização.

Vamos voltar a Joker? Amanhã, vai ser entronizado como o melhor filme dos últimos tempos - já leva no currículo todos os prémios, Veneza, os Bafta e os Globos de Ouro. E toda a gente vai aplaudir, sem pensar duas vezes. É o que acontece quando um filme é tão negro, tão triste e passível de tantas leituras - saúde mental, política, ética, etc.

E é bem: este não é um filme qualquer, é um filme moderno, não pelo argumento nem pela estética - bebe na inspiração de vários filmes dos anos 1980. É-o pelo que conta dos nossos tempos - e não pelas boas razões. Surpreendi-vos? O que parecia um elogio não é. Deixemos os argumentos narrativos para quem deles sabe mais, os críticos. E falemos de política.

E é aqui que reside o perigo político de Joker: na comiseração e na vitimização sem consequências.

O filme tenta explicar qual foi a génese da personagem de Joker, na saga Batman. Nos vários Batman, Joker é um maléfico puro, sem que tenha de se explicar porque se tornou assim. Em Joker, o realizador, Tod Phillips resolve explicar a sua maldade por uma espécie de injustiça do mundo... mas corre mal.

O mundo sabe ser cruel, e é-o em muitos filmes e livros, justificando aos olhos dos espectadores muitos vilões. Joker é uma personagem que se sente mal nesse mundo, e até com razões para isso: é doente mental, pobre, vive num subúrbio escuro e trata de uma mãe também doente. São tudo problemas sérios, mas são tudo problemas individuais.

Acontece que a narrativa do filme agarra nestes problemas dando-lhes um sentido coletivo: quando Joker começa a matar pessoas, de forma fortuita, esses homicídios são lidos como um sintoma de uma luta social, provocam motins e manifestações nas ruas de Gotham, ou NY. Que nunca no filme se explique bem qual o motivo dessas manifestações - pobres contra ricos, brancos contra negros? - pode querer dizer que o realizador tinha esperança de que quem estivesse a vê-lo o preenchesse com as suas razões de queixa. O que é esperto. E também perigoso.

E é perigoso porque o mundo está, de facto, assim. No cruzamento entre o individual e o coletivo, privilegiando o individual. Jokeré um hino, alto e bom som, ao "eu contra eles" ou ao "nós contra eles" - que é a principal arma de arremesso do populismo. É essa que este filme usa. Com igual primitivismo e talvez ainda menos adesão à realidade.

Do princípio ao fim do filme, não há um único motivo social para que a luta individual de Arthur, assim se chama este Joker, se transforme numa questão coletiva. Todas as razões do seu desespero são reais - o azar de ter tido uma mãe com problemas mentais, de ter sido vítima de abuso em criança, sofrer de bullying pela sua condição mental de dar gargalhadas inconvenientes. Mas têm mais que ver com a sua biografia do que com o mundo em que ela ocorre.

Não se pode deixar de pensar neste filme como um anticlinteastwoodiano. Onde o velho realizador coloca a responsabilidade individual, a dimensão humana de todos - bons e maus -, a capacidade hollywoodesca de "ter responsabilidade" sobre o seu destino, Joker é a incapacidade de perceber a responsabilidade individual sobre o nosso destino e o que nos rodeia. A responsabilidade. E a escolha. E é aqui que reside o perigo político de Joker: na comiseração e na vitimização sem consequências.

Acontece, por exemplo, com o triplo homicídio que é o gatilho da mudança de Arthur para Joker. Arthur transforma-se em Joker por dá cá aquela palha. É como se lhe tivesse simplesmente acontecido matar três pessoas. E nem o filme lhe serve de consciência, como costuma acontecer.

Quando Arthur mata três jovens "financeiros de Wall Street" no metro - felizes os países em que os ricos andam de metro - não o faz por eles serem ricos nem por serem de Wall Street. Fá-lo porque... pode. Porque tem uma arma que lhe foi colocada nas mãos em mais um nó estranho desta narrativa.

Os filmes têm duas maneiras de contar histórias: ou vão tirar ao real os elementos de verosimilhança que nos fazem acreditar, inspirar-nos, ou não gostarmos, ou partem para o fantástico dos heróis de quadradinhos. Porque estava a fugir a sete pés desta segunda opção, o realizador Todd Phillip esqueceu-se da primeira.

E coloca o espectador perante uma personagem sem textura nem profundidade, e, mais grave, sem justificação. E o pior é que muitos dos que estarão a aplaudir em LA farão parte da mesma plateia liberal - Hollywood é isso - que critica veementemente o populismo, e o tem como causa de muitos dos males que tornam este nosso mundo "muito complicado", como diria Arthur Fleck.

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