A igualdade e as meias no chão

A igualdade começa em casa. E não é dessa forma em que estão a pensar, que tem ensombrado o tema por estes dias, a violência doméstica. A violência doméstica é um sintoma óbvio de desigualdade, mas não é aí que ela começa - a violência doméstica é, pelo contrário, a desigualdade levada ao extremo.

A igualdade que começa em casa é a que vem retratada no estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, As mulheres em Portugal , hoje. O facto de este ser o mais abrangente alguma vez feito sobre o tema só ajuda à tese. A igualdade que começa em casa é a que se mede em número de vezes em que a mulher lava a loiça ou apanha as meias sujas do chão. Ou cozinha. Ou pensa no que vai cozinhar. Ou as vezes em que é ela que tem de deixar de ir ao ginásio, porque de manhã há vários lanches para pôr nas mochilas das crianças. Por comparação com quem tem lá em casa.

Pouco se presta atenção a isto, uma questão relegada para a intimidade doméstica, para aquilo de que ninguém fala, ou gosta e quer de falar abertamente. E, no entanto, é aqui que tudo começa: a desigualdade vivida pelas mulheres é, antes de ser nas administrações, nos salários ou até nos cargos, em primeiro lugar, a da diferença de tarefas que lhes cabem. A tradição empurra as mulheres para tarefas corriqueiras, simples mas que têm de ser feitas. E elas, ao mesmo tempo que têm de as fazer, perdem o tempo que poderiam dedicar a algo mais importante para elas. Nem que fosse, simplesmente, descansar.

Segundo o estudo da FFMS, em média, elas ainda fazem 74% das tarefas domésticas, contra 23% que são os companheiros a fazer. E, de acordo com a investigação, "serão necessárias entre cinco a seis gerações para que se alcance uma distribuição equilibrada das tarefas domésticas entre sexos", entre os casais em que ambos têm trabalho pago.

Por isso elas estão, em Portugal, sempre ou quase sempre "demasiado cansadas", como explica este estudo. O que acaba por refletir-se na saúde: uma em cada dez toma diariamente medicação para a ansiedade, distúrbios de sono ou antidepressivos.

E é também por isso que o companheiro é a componente das suas vidas que mais influencia a sua felicidade - não apenas por motivos românticos, ou por motivos laborais, como explicava Sheryl Sandberg no seu manual de feminismo, Lean In, mas porque a escolha de um parceiro pode ser fundamental no tempo que elas vão ter. É aqui que a igualdade começa e aqui que acaba.

Porque não há carreira de sucesso que compense ter de apanhar as meias sujas alheias do chão. Neste estudo percebe-se que a situação laboral muda pouco esta questão, digamos, das meias sujas. Quantas mulheres, executivas, em cargos de chefia, ombreando com qualquer pessoa, e de qualquer sexo, em eficiência e qualidade, chegam a casa para serem, não as fadas, mas as escravas do lar? Entre ler quadros de Excel e definir estratégias que vão ter impacto na vida de centenas de pessoas, acabam por ter de distrair-se a pensar no que vão fazer para o jantar?

O efeito que isto tem, na imagem destas mulheres sobre elas próprias, no seu amor próprio, está também na infelicidade que este estudo da FFMS relata. O efeito que isso tem na sociedade vê-se no perpetuar dos estereótipos, na sua reprodução ao longo do tempo. E de que a violência doméstica que tantas vezes leva à morte é a ponta do iceberg.

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