A humanidade à espera de apertos de mão

Mais do que um beijo, um aperto de mão é um sinal social. Que nos determina como comunidade, ligados aos outros por esse bocado de pele

Um aperto de mão quase nunca é apenas um aperto de mão. É um símbolo de um contrato, o medir da temperatura de uma relação, e, tantas e tantas vezes, um avaliador de personalidade.

Um aperto de mão era, até março, banal - mas nem sempre foi hábito. Há teorias diferentes sobre as suas origens, há quem diga que nasceu na Grécia antiga, como um símbolo de paz entre duas pessoas, numa teoria que é a mesma que o atribuiu aos cavaleiros medievais - ao estender a mão direita damos conta de que não a vamos usar para desembainhar a espada, nem que estejamos a transportar nenhuma espécie de arma.

Nos Estados Unidos correm as ideias de que os apertos de mão foram adotados pelos quakers e outros protestantes porque simbolizava um certo igualitarismo perante Deus e perante todos os outros homens.

Todas as vantagens foram-nos amputadas por este vírus anti-social, cansativo. Irónico e até um pouco masoquista - porque nos ataca fundo nos hábitos que nos tornam o que somos.

E um aperto de mão é, de facto, tudo isso. É um pequeno ponto de conexão, um toque de pele com pele, conhecida ou desconhecida, uma palma desarmada sobre a outra palma desarmada. Estabelece uma relação entre duas pessoas que, conhecendo-se ou não, ficam por ela marcadas.

É essa a sua magia. É essa a sua força. E é essa a sua simbologia. E toda a sua fraqueza, sendo o aperto de mão a primeira das vítimas sociais desta pandemia. Todas essas vantagens foram-nos amputadas por este vírus anti-social, cansativo. Irónico e até um pouco masoquista - porque nos ataca fundo nos hábitos que nos tornam o que somos.

É isso. É a própria humanidade que está diminuída quando nos falham os apertos de mão. Como nos falham agora, e vão falhar durante longos meses. Até podemos - e devemos - voltar às ruas. Até podemos, e devemos, mantendo as distâncias, começar a ver amigos, a ter reuniões de trabalho, a rever as nossas cidades, a retomar uma certa normalidade de hábitos sociais. Há, é certo, um que não vai regressar tão cedo: o aperto de mão.

Não é à toa que o aperto de mão leva a melhor sobre outras formas de cumprimento, como a vénia chinesa, ou a mão sobre o coração, islâmica, ou o namaste hindu, ou mesmo o shaka do Havai, popularizado pelos surfistas do mundo todo. É que o aperto de mão é um sinal extraordinário de confiança - e já era, mesmo antes de sabermos o quanto era, que foi, no fundo, o que nos disse este vírus.

Só apertamos a mão a quem confiamos suficiente para a partilha dos germes que sempre existem nas mãos de alguém.

Citada pela BBC, a professora Val Curtis, da London School of Hygiene and Tropical Medicine dizia que uma das razões por que o aperto de mão se difundiu tanto e foi adoptado por tantas culturas, e sobreviveu a tantas eras e pandemias, é o facto de significar, antes de mais, a confiança no outro. Porque só apertamos a mão a quem confiamos suficiente para a partilha dos germes que sempre existem nas mãos de alguém.

E é nas mãos que reside o busílis de toda esta questão. Elas que nos ajudam a comunicar com o mundo, a senti-lo e a interagir com ele, são também o nosso maior foco de contaminação. Não é por elas que o vírus nos apanha, mas é através delas - e daí o a maior perigo de um aperto de mão. Até quando? Ainda não sabemos.

Anthony Fauci, o diretor da Saúde Pública (CDC) americano disse, numa polémica conferência de imprensa que achava que "nunca mais vamos apertar mãos". Explicava a sua opinião, não só com o coronavírus, mas também com as epidemias anuais de gripe, e que a higienização dos nossos cumprimentos pode combater - percebemos que qualquer pretexto deve ser bom para que o Dr. Fauci não pense mais em apertar a mão ao presidente americano.

Dentro desta lógica até podemos ir mais longe. Podem mais facilmente regressar os abraços que damos aos que consideramos seguros, dentro das nossas relações de confiança. Podem certamente voltar alguns beijos, porque, da forma como os damos socialmente, normalmente rápidos e afastados, representam menos perigo de contágio do que um apertar da carne contra a carne que é um aperto de mão.

Reparem que não falo de abraços ou de beijos. Esses são momentos importantes, mas dizem respeito à nossa vida íntima. Um abraço, um tocar no ombro, o prelúdio de um beijo - seja na cara seja nos lábios - todos esses momentos são cruciais, importantes para o conforto pessoal e emocional de cada um. Mas não nos definem como sociedade, não determinam a nossa convivialidade.

Ora o aperto de mão, existindo entre estes dois mundos, o íntimo, privado, e o social, público, define, de certa forma, o nosso lugar social, ata-nos a uma teia de relações. Que não o possamos exercer deixa-nos mais soltos, e definitivamente mais sozinhos.

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