Os "substitutos" de abril

Em casa.

Não vivi o 25 de abril. O original de 74.

Mas todos os outros a seguir ao de 79, na realidade também têm sido em casa, mas por opção.

Esta ideia de ir à rua, celebrar ou simplesmente passear é cada vez mais estranha, mais distante da memória. E dou por mim a pensar em sair, de forma livre, mas ao mesmo tempo sem querer sair. Sem me expor. Sem ter contacto com o bicho que aí anda. Mas sair.

Talvez ligar-me a uma maquineta, o mais digital e longe em tempos futuros, e sair. Livre.

Não sair em corpo, mas sair em alma, e também em tempos futuros, a alma pode ter uma dimensão digital. Imaterial, mas materializável.

Esta maquineta permitir-me-ia sair sem sair, mas viver livre, de forma enclausurada em casa.

Sair no corpo de um humanóide robótico controlado remotamente... por mim. Integrar a sociedade de forma livre. Livre, como em abril deveríamos ser. Principalmente em abril.

Eu seria uma versão melhorada de mim. Um humanóide talvez mais esguio, bem parecido, com menos rugas, ou nenhumas, e com zero cabelos brancos.

Talvez escolhesse um modelo de última geração, com força, velocidade, agilidade, resiliência e inteligência superiores.

Para profissão, quiçá a mesma, ou as mesmas, porque lá me vou dividindo, livremente, entre uma e outra.

E eu enclausurado vivia livre, experienciando abril, a rua e a vida, a partir do conforto cativo e aprisionado de casa.

Já me vejo na rua, de casaco e cravo na lapela em amena conversa entre humanóide amigos, a rir. São modelos equipados com um sistema de alimentação eléctrica em casa. Como os smartphones ou os computadores. Ou quase tudo aquilo que agora temos! Se até os automóveis já podemos alimentar em casa, porque uma versão robótica de nós próprios?

Na esquina, logo a seguir ao Galeto, cruzo-me com alguns colegas, que tal como eu, passeiam livres, em abril, mas encarcerados em casa.

O Galeto, infelizmente, está vazio. Esse mesmo. O dos preguinhos ao balcão!

Ou não! Provavelmente será um centro de alimentação elétrica, com aditivo ou sem aditivos e com outros condimentos digitais e electrónicos que emprestam poderes específicos aos humanóides.

E lá vamos nós, rua abaixo, livres, sem sair de casa.

Designer. Director do IADE - Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação da Universidade Europeia

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