Dezembro de 2071

Não estando em nenhum lugar em particular, estou em qualquer lugar.

É assim que se vive em 2071.

Apesar de tudo, há coisas que nunca mudam e eu, com 92 anos, às quartas-feiras mantenho o ritual de ir almoçar um prego e uma cerveja ao Galeto. Já me habituei ao mundo virtual, na verdade ele nasceu e desenvolveu-se à medida que eu ia envelhecendo.

Mas sempre que vou ao Galeto, fujo das chamadas holográficas, afasto-me das pessoas virtuais só para me sentar, sozinho, numa cadeira alta do balcão em serpentina. Que luxo!

Vou sempre de carro com o meu neto João. É ele que conduz. Ou melhor... ele na verdade é apenas o dono do carro, porque ele nem carta de condução tem. Agora já não se tira a carta! Os carros andam todos sozinhos sem ajudas, sem nada... tem vantagens e desvantagens, depende como se olha para o fenómeno. Trabalha-se ainda mais, é o que eu acho, pois, as horas de viagem sempre dão para mais uma reuniãozita.

Os mais abastados nem carro têm. Ou de drone ou de aero-móbil lá chegam eles para o seu preguinho. Para estacionar é melhor e lá ficam por cima dos telhados a "boiar" como se de uma caravela se tratasse, ao sabor dos ventos e das marés.

Sempre que vou ao Galeto, e já o faço desde 2001, no ano que terminei o curso, sinto-me como Kublai Kan se sentiu a ouvir os relatos de Marco Polo. Sinto-me num mundo que caminha para a ruína. Ruína social, calma! É certo que temos cidades mais verdes, tudo altamente sustentável, recuperámos as florestas e eliminámos o petróleo das nossas vidas. Mas em oposição transformámo-nos numas bestas sociais. Sem vida material, sem prazeres mundanos. Não mexemos, não fazemos, só experienciamos e imaginamos. Enfim... podia ser pior. Antes isto que um mundo cheio de replicants a percorrer as ruas de uma cidade envolvida numa névoa seca e mórbida, cidade vítima do aquecimento global, deserta de pessoas, despejada de vida.

Lá salvámos o planeta é o que eu digo! Nem sei como...

Hoje é quarta-feira! E cá estou no Galeto a saborear o meu prego.

O que mais gosto quando aqui venho é poder desligar da humanidade tecnológica. Uma humanidade criada por nós que passou a dimensão do objecto vivo para segundo plano, em que as máquinas ganharam um sentido para a vida, e nós humanos mecanizámo-nos de tal forma que desaproveitámos a alma.

É no Galeto que mato as saudades de um bom jornal impresso! Sim ainda se fazem, mas são uma raridade. Leio na secção de Justiça que lá foram mais uns quantos condenados pelo juiz-digital, um algoritmo que ajuda os tribunais a manter a "papelada" em dia.

Na secção de Saúde leio que, com a ajuda da inteligência artificial, se descodificou mais um vírus em apenas 3 dias, e a vacina deve chegar às farmácias em pouco mais de 3 semanas.

Ficou rápido este mundo! Lembram-se dos tempos do Covid? Esse Sars-Cov-e- tal, nos tempos que correm? Durava uma tarde!

Na secção de Desporto, tudo na mesma... os records do Cristiano continuam por bater e o Benfica continua a limpar campeonatos.

Este Galeto bem podia estar no grupo temático do "desejo", das Cidades Invisíveis do Calvino. Sempre que aqui me sento, intuitivamente transporto-me para uma ordem natural das coisas, mas arrumadas de forma caótica. Sinto-me paradoxalmente na dúvida, mas com certezas do mundo onde vivemos. E acabo por me perder no infinito dos caminhos que gerei para cada uma das minhas escolhas.

E eu, em 2071 continuo a escolher o prego e a cerveja do Galeto. Que maravilha!

Designer, Director do IADE - Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação da Universidade Europeia

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