Oportunidade perdida

Não, não foi anúncio do governo nem do Bloco de Esquerda. Pedro Nuno Santos tem razão. O problema é que ninguém a não ser o governo deu por isso e agora pode já ser tarde. A declaração do secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares ao DN - "Os anúncios sobre o Orçamento são feitos pelo governo" - é tão tardia quanto ineficaz.

Não passou assim tanto tempo. Há pouco mais de oito meses, PS, Bloco, PCP e Verdes negociavam tranquilamente o OE 2016. Pouco pingou para os jornalistas, o que não é um exercício fácil, e o governo liderado por António Costa até foi elogiado por isso. Ficou dito e escrito na altura que tinha sido um belo exemplo de coordenação política, uma marca de diferença para o governo anterior.

Ora, algo se perdeu desde essa altura. O caso do imposto-sobre-imóveis--acima-de-não-sabemos-bem-quanto é apenas o último ato conhecido deste novelo - durou todo o verão - de descoordenações dentro do executivo e entre o PS e os seus parceiros. Dizer que foi uma fuga de informação, ou que a geringonça é mesmo assim, que as divergências assumem-se em público, não chega.

Não chega, sobretudo, porque o mal está feito. Num dos países mais desiguais da Europa, onde a pobreza e a desigualdade cresceram acima da média durante os anos da crise, e onde a esmagadora maioria é incapaz de imaginar sequer uma poupança de 500 mil euros, o mínimo que se pode dizer é que o governo perdeu uma bela oportunidade. E "dar espaço" de afirmação política aos parceiros, como sugere Pedro Adão e Silva hoje no DN, só faz sentido se não se queimarem medidas na praça pública apenas para manter a saúde da geringonça.

O facto é que, por mais flexível que seja o conceito de classe média, e em Portugal ele tem sido bastante flexível, não estamos a falar de classe média quando a fasquia de poupança anda algures entre os 500 mil e o milhão de euros. Tivesse sido bem gerida a comunicação e esta era uma medida com potencial para grande adesão na base de apoio político do executivo. Até por isso, porque um dos principais argumentos da oposição não cola, esta pode ter sido uma oportunidade perdida.

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