O jornalismo e o desafio da verdade

Um jornalismo sem fingimentos, hostil às falsidades, a slogans sensacionalistas e a declarações bombásticas; um jornalismo feito por pessoas para as pessoas e considerado como serviço a todas as pessoas, especialmente àquelas - e no mundo são a maioria - que não têm voz; (...) um jornalismo empenhado em indicar soluções alternativas à escalada do clamor e da violência verbal." O apelo é do Papa Francisco, na mensagem que publicou ontem, no Dia Mundial da Comunicação Social - uma ideia saída do Concílio Vaticano II.

Francisco escolheu as fake news como tema e só para que quem tem por hábito odiar possa odiar, fica aqui algo que vai valer uns quantos comentários negativos: recuemos os anos ou as décadas que recuarmos, será difícil encontrar tempos tão desafiantes e decisivos para o exercício do jornalismo. Num mundo cada vez mais polarizado, em que há retrocessos em demasiadas democracias para que nos sintamos confortáveis, o papel do jornalismo, o poder da informação ou de uma história bem contada ganharam uma nova e súbita vida. É verdade que o papel já não vende o que vendia, que já poucos veem televisão ou ouvem rádio como o faziam há meia dúzia de anos, mas é igualmente verdade que chegamos agora a muito mais pessoas - algumas em pontos insuspeitos do globo - e de forma mais direta, quase sempre na palma da mão. E querem saber o melhor de toda esta mudança? Mesmo com um modelo de negócio ainda essencialmente indefinido e apesar de todas as dúvidas e incertezas, sabemos que o conjunto de regras que define a profissão mantém-se absolutamente válido.

O mundo é agora muito mais democrático do que em 1967, mas o crescimento exponencial do número de países em democracia, registado desde o pós-II Guerra, tem sofrido algumas hesitações nos últimos 15 anos - os tais retrocessos. Se resistirmos a relativizar a verdade, se recusarmos alimentar e alimentar-nos da polarização do espaço público, se questionarmos a sedução de alguns populismos - apesar de inorgânicos, também os temos por cá -, estaremos a contribuir para que a ideia de democracia não se dilua. Não me parece um programa pouco ambicioso.

Regresso a Francisco. "No meio do frenesim das notícias e na voragem das cachas, o jornalista tem o dever de lembrar que, no centro da notícia, não estão a velocidade em comunicá-la nem o impacto sobre a audiência, mas as pessoas. Informar é formar, é lidar com a vida das pessoas."

Ler mais

Exclusivos

Premium

Nuno Artur Silva

Notícias da frente da guerra

Passaram cem anos do fim da Primeira Guerra Mundial. Foi a data do Armistício assinado entre os Aliados e o Império Alemão e do cessar-fogo na Frente Ocidental. As hostilidades continuaram ainda em outras regiões. Duas décadas depois, começava a Segunda Guerra Mundial, "um conflito militar global (...) Marcado por um número significativo de ataques contra civis, incluindo o Holocausto e a única vez em que armas nucleares foram utilizadas em combate, foi o conflito mais letal da história da humanidade, resultando entre 50 e mais de 70 milhões de mortes" (Wikipédia).

Premium

nuno camarneiro

Uma aldeia no centro da cidade

Os vizinhos conhecem-se pelos nomes, cultivam hortas e jardins comunitários, trocam móveis a que já não dão uso, organizam almoços, jogos de futebol e até magustos, como aconteceu no sábado passado. Não estou a descrever uma aldeia do Minho ou da Beira Baixa, tampouco uma comunidade hippie perdida na serra da Lousã, tudo isto acontece em plena Lisboa, numa rua com escadinhas que pertence ao Bairro dos Anjos.