Mugabe foi um grande homem

O título deste artigo usa o verbo ser no passado, não no presente, porque o Robert Mugabe que passou anos na prisão por combater o regime racista da Rodésia de Ian Smith, também o ex-guerrilheiro que negociou a permanência dos brancos no Zimbabwe pós-1980 e ainda o antigo professor que como governante se esforçou por educar o seu país (ainda hoje, com 90% de literacia, uma das melhores de África) há muito que deixou de existir. Foi um grande homem, poderia ter sido um grande homem, deixou de ser um grande homem por causa de si próprio, por não saber quando deixar o poder.

O presidente de 93 anos que assiste agora a um golpe militar no país que fez independente em 1980 tornou-se, com o passar das décadas, um autocrata, tão agarrado ao poder que pôs a economia em ruínas ao promover uma reforma agrária selvagem (com ocupação de quintas de zimbabweanos brancos), mergulhou o país na hiperinflação a dado momento e só continuou a aceitar a vontade do voto enquanto esta era a seu favor (por isso, Morgan Tsvangirai desistiu de ir à segunda volta das presidenciais de 2008, depois de ter ganho dianteira na primeira). Nos últimos tempos, foi mesmo ao ponto de afastar quem na ZANU-PF, o seu partido, contrariasse a ascensão de Grace Mugabe, a sua primeira-dama 40 anos mais nova e chamada de "Grace Gucci" pelos críticos, dadas as suas idas às compras de produtos luxuosos.

O passado de líder anticolonial conta muito em África e por isso os outros governantes abstinham-se em boa medida de criticar Mugabe. E ainda recentemente o novo diretor-geral da OMS, o etíope Tedros Ghebreyesus, nomeou o presidente zimbabweano embaixador da Boa Vontade da agência da ONU dedicada à saúde, tendo depois de voltar atrás por causa da repulsa geral. Pelo contrário, Desmond Tutu, arcebispo sul--africano e Nobel da Paz, foi em tempos uma voz africana que denunciou a deriva de Mugabe e até disse que este se tornara uma caricatura de si próprio, "um Frankenstein para o seu povo".

Dias antes do golpe de terça-feira, Mugabe afastou o seu vice Emmerson Mnangagwa, um histórico da ZANU-PF. E viu o chefe do Estado-Maior, o general Constantino Chiwenga, ameaçar contra as purgas no partido governamental em favor de Grace tornar--se a sucessora. Os militares, entretanto, saíram inesperadamente para a rua e o presidente está sob prisão domiciliária. Mas a grande dúvida hoje não é o destino de Mugabe, mas sim o do Zimbabwe. O seu fundador perdeu a oportunidade de ser grande, mas o país não.

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