De que vale um líder certinho?

O PSD que saiu do congresso da FIL levou para a primeira semana de vida real a divisão nas votações para os diferentes órgãos do partido, no domingo. Estava mais do que anunciada a reação dos órfãos do passismo - teve bastante palco no congresso -, mas o motim na bancada parlamentar foi sério e tem todos os ingredientes para vir a criar ruído à afirmação da nova liderança, ou talvez não.

Rui Rio viveu toda a sua carreira executiva na política, os mandatos na Câmara do Porto, em confronto. Contra hábitos instalados na autarquia, contra o statu quo na cultura ou contra o Futebol Clube do Porto. Num tempo ainda livre de redes sociais e em que a representatividade não vivia uma crise tão profunda como atualmente, Rio foi ganhando eleições. Uma guerra com o grupo parlamentar, no atual estado de coisas, com o fraco capital de credibilidade que a Assembleia da República tem junto da opinião pública, será algo que Rui Rio poderá usar mais como currículo do que como cadastro. A mesma lógica pode ser aplicada à poeirada levantada pela escolha de Elina Fraga para uma das vice-presidências do PSD. Se Rio conseguir, com gestos como esse e convivendo com uma frente interna de contestação, provar que não é "um político como os outros", terá mais a ganhar do que a perder.

Não veremos certamente Rui Rio a abrir conta no Twitter para falar diretamente para as bases, mas a estratégia de não seguir um guião previsível tem tudo para agradar a faixas do eleitorado mais cansadas da política. Se isso vai conquistar votos ao centro, onde o PSD terá de ser competitivo se quiser recuperar as perdas dos últimos anos, já é mais incerto. Aí, Rio parece apostar numa outra face da diferenciação em relação a Passos Coelho, com uma disponibilidade para dialogar com o PS. O eleitor médio do centro valoriza a capacidade de diálogo, de entendimento e penaliza a crispação ou a oposição pela oposição. Passos capitalizou em votos cada PEC ou OE viabilizado a Sócrates, por muitos engulhos internos que lhe tenham criado essas opções.

Será esse o guião que Rui Rio vai discutir hoje com Marcelo Rebelo de Sousa à hora do almoço em Belém. Não sairá desse esforço a três - Marcelo, Costa e Rio -, certamente, vontade política suficiente para afrontar corporações e avançar nas reformas, mas todos têm mais a ganhar do que a perder com a encenação.

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Ricardo Paes Mamede

O FMI, a Comissão Europeia e a direita portuguesa

Os relatórios das instituições internacionais sobre a economia e a política económica em Portugal são desde há vários anos uma presença permanente do debate público nacional. Uma ou duas vezes por ano, o FMI, a Comissão Europeia (CE), a OCDE e o Banco Central Europeu (BCE) - para referir apenas os mais relevantes - pronunciam-se sobre a situação económica do país, sobre as medidas de política que têm vindo a ser adotadas pelas autoridades nacionais, sobre os problemas que persistem e sobre os riscos que se colocam no futuro próximo. As análises que apresentam e as recomendações que emitem ocupam sempre um lugar destacado na comunicação social no momento em que são publicadas e chegam a marcar o debate político durante meses.

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João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.