De que vale um líder certinho?

O PSD que saiu do congresso da FIL levou para a primeira semana de vida real a divisão nas votações para os diferentes órgãos do partido, no domingo. Estava mais do que anunciada a reação dos órfãos do passismo - teve bastante palco no congresso -, mas o motim na bancada parlamentar foi sério e tem todos os ingredientes para vir a criar ruído à afirmação da nova liderança, ou talvez não.

Rui Rio viveu toda a sua carreira executiva na política, os mandatos na Câmara do Porto, em confronto. Contra hábitos instalados na autarquia, contra o statu quo na cultura ou contra o Futebol Clube do Porto. Num tempo ainda livre de redes sociais e em que a representatividade não vivia uma crise tão profunda como atualmente, Rio foi ganhando eleições. Uma guerra com o grupo parlamentar, no atual estado de coisas, com o fraco capital de credibilidade que a Assembleia da República tem junto da opinião pública, será algo que Rui Rio poderá usar mais como currículo do que como cadastro. A mesma lógica pode ser aplicada à poeirada levantada pela escolha de Elina Fraga para uma das vice-presidências do PSD. Se Rio conseguir, com gestos como esse e convivendo com uma frente interna de contestação, provar que não é "um político como os outros", terá mais a ganhar do que a perder.

Não veremos certamente Rui Rio a abrir conta no Twitter para falar diretamente para as bases, mas a estratégia de não seguir um guião previsível tem tudo para agradar a faixas do eleitorado mais cansadas da política. Se isso vai conquistar votos ao centro, onde o PSD terá de ser competitivo se quiser recuperar as perdas dos últimos anos, já é mais incerto. Aí, Rio parece apostar numa outra face da diferenciação em relação a Passos Coelho, com uma disponibilidade para dialogar com o PS. O eleitor médio do centro valoriza a capacidade de diálogo, de entendimento e penaliza a crispação ou a oposição pela oposição. Passos capitalizou em votos cada PEC ou OE viabilizado a Sócrates, por muitos engulhos internos que lhe tenham criado essas opções.

Será esse o guião que Rui Rio vai discutir hoje com Marcelo Rebelo de Sousa à hora do almoço em Belém. Não sairá desse esforço a três - Marcelo, Costa e Rio -, certamente, vontade política suficiente para afrontar corporações e avançar nas reformas, mas todos têm mais a ganhar do que a perder com a encenação.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Anselmo Borges

Islamofobia e cristianofobia

1. Não há dúvida de que a visita do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos de 3 a 5 deste mês constituiu uma visita para a história, como aqui procurei mostrar na semana passada. O próprio Francisco caracterizou a sua viagem como "uma nova página no diálogo entre cristianismo e islão". É preciso ler e estudar o "Documento sobre a fraternidade humana", então assinado por ele e pelo grande imã de Al-Azhar. Também foi a primeira vez que um Papa celebrou missa para 150 mil cristãos na Península Arábica, berço do islão, num espaço público.

Premium

Adriano Moreira

Uma ameaça à cidadania

A conquista ocidental, que com ela procurou ocidentalizar o mundo em que agora crescem os emergentes que parecem desenhar-lhe o outono, do modelo democrático-liberal, no qual a cidadania implica o dever de votar, escolhendo entre propostas claras a que lhe parece mais adequada para servir o interesse comum, nacional e internacional, tem sofrido fragilidades que vão para além da reforma do sistema porque vão no sentido de o substituir. Não há muitas décadas, a última foi a da lembrança que deixou rasto na Segunda Guerra Mundial, pelo que a ameaça regressa a várias latitudes.