Assim também quero ser banqueiro

O prejuízo revelado ontem pelo Novo Banco foi classificado como "histórico" e o Estado, através do Fundo de Resolução, vai ter de entrar com mais 450 milhões. Boa parte desse prejuízo justifica--se com o registo de imparidades - créditos que o Novo Banco julga não poder recuperar, à luz de novas regras definidas pela nova administração e pelos novos acionistas.

A história, no essencial uma limpeza de balanço semelhante à que foi operada na CGD também com dinheiro público, não vai ficar por aqui. Agora ficaram registados 2056 milhões de imparidades, mas "amanhã" há de ficar anotado o resto que falta até perfazer o total da garantia estatal, de 3,9 mil milhões. Não é nada de estranho. A Lone Star, detentora de 75% do banco bom que sobrou da resolução do BES desde outubro do ano passado, tem todos os incentivos para proceder desta forma. Repito. Nada do que a Lone Star está a fazer pode ser censurável. Está apenas a beneficiar das condições de um negócio que fechou há cinco meses em condições quase perfeitas para o comprador e perto de desastrosas para o vendedor. Dir-me-ão: "Foi o negócio possível naquelas circunstâncias." Certo, mas talvez fosse bom pensar no caminho percorrido até à venda do Novo Banco naquelas condições, no acumular de erros que levaram a esse cenário e no eventual apuramento de responsabilidades.

Nada disso acontecerá, claro, e o fundo norte-americano age da forma mais racional. A mecânica está prevista no acordo assinado entre a Lone Star, o Banco de Portugal e o Fundo de Resolução. Os ativos que forem levados a imparidades passam para o Fundo de Resolução e o Novo Banco recebe dinheiro do Fundo, limpando o balanço e ficando com os rácios de capital mais apresentáveis. Isto poderá continuar até que se esgotem os tais 3,9 mil milhões de garantia estatal. Se parece um belo negócio, é porque é um belo negócio.

Talvez seja altura de termos uma longa conversa sobre a qualidade da gestão bancária em Portugal nos últimos anos, sobretudo nos bancos que tinham capital e acionistas portugueses. Tinham. Já não têm. Nesta semana ficámos a saber que a conta das ajudas públicas à banca já vai nos 17 mil milhões de euros nos últimos dez anos - quase 9% do produto interno bruto. É a medida real da qualidade da gestão que a banca portuguesa tem tido, aparentemente com uma especialização em maus negócios e perda de valor.

Ler mais

Exclusivos

Premium

nuno camarneiro

Uma aldeia no centro da cidade

Os vizinhos conhecem-se pelos nomes, cultivam hortas e jardins comunitários, trocam móveis a que já não dão uso, organizam almoços, jogos de futebol e até magustos, como aconteceu no sábado passado. Não estou a descrever uma aldeia do Minho ou da Beira Baixa, tampouco uma comunidade hippie perdida na serra da Lousã, tudo isto acontece em plena Lisboa, numa rua com escadinhas que pertence ao Bairro dos Anjos.

Premium

Rui Pedro Tendinha

O João. Outra vez, o João Salaviza...

Foi neste fim de semana. Um fim de semana em que o cinema português foi notícia e ninguém reparou. Entre ex-presidentes de futebol a serem presos e desmentidos de fake news, parece que a vitória de Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos, de Renée Nader Messora e João Salaviza, no Festival do Rio, e o anúncio da nomeação de Diamantino, de Daniel Schmidt e Gabriel Abrantes, nos European Film Awards, não deixou o espaço mediático curioso.