A quem quiser enfiar a cartola

É fácil procurar o clique e aproveitar a sede de ódio contra o sistema. Cada vez mais fácil. Trago aqui dois exemplos. Num tempo em que os factos contam cada vez menos, em que à indignação basta um título visto de raspão no Facebook ou no Twitter, o jornalismo e a opinião assinada por jornalistas têm obrigações acrescidas de rigor.

Primeiro caso: as alterações à lei do financiamento dos partidos. Os factos estão nas primeiras páginas desta edição e, em boa medida, contrariam a opinião publicada nos últimos dias. É certo que os partidos se sentaram num grupo de trabalho, no Parlamento, e decidiram resolver os problemas financeiros e contabilísticos uns dos outros. Foi às escondidas? Sim, mas essa é a norma destes grupos de trabalho. Não há acesso a jornalistas e só conhecemos o que lá se passa quando os partidos falam à margem. Na verdade perdeu-se uma boa oportunidade para algum debate público. É igualmente certo que o tempo do voto foi estranho - à beira do Natal - e que os partidos tudo fizeram para que a coisa passasse despercebida. Basta ler o preâmbulo das alterações, onde é dito que se trata de um conjunto de alterações pontuais à lei. Não é, de todo, disso que se trata.

Dito isto, não é verdade que tenha desaparecido o limite aos donativos individuais e também não é verdade que tenham sido aligeiradas as regras de publicidade e transparência desses donativos. Se há algo que resulta destas alterações é precisamente um controlo mais apertado às contas dos partidos. Conclusão? A história não precisava do sal e pimenta a mais, sendo que é precisamente esse excesso que ficará agora a marcar o debate nas redes. Ou seja, a indignação geral está parcial e desnecessariamente fundada em factos falsos.

Segundo caso, mais simples de explicar: a história das cartolas para a festa de fim de ano em Lisboa, compradas pela EGEAC. Os títulos andaram todos mais ou menos à roda disto: "Câmara de Lisboa gasta 57 mil euros em cartolas para a passagem de ano". Valeu um dia de discussão sobre se era uma despesa justificada pela vaga de turismo, se as cartolas eram de bom gosto, se o autarca não estaria a ensandecer, etc. No meio de tudo isto, apenas um jornal se deu ao trabalho de ouvir a EGEAC e chegou à conclusão de que a despesa da Câmara estava totalmente coberta por um patrocínio. Lisboa não vai gastar um cêntimo nas cartolas. Quem fez as perguntas? Uma jornalista do site Notícias ao Minuto, que ainda assim manteve o título. Passando ao lado da ironia de ter sido o Notícias ao Minuto a fazer o trabalho que mais ninguém fez, está bom de ver que precisamos todos de um pouco mais de ponderação antes de lançarmos combustível nas redes.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

O populismo entre nós

O sucesso eleitoral de movimentos e líderes populistas conservadores um pouco por todo o mundo (EUA, Brasil, Filipinas, Turquia, Itália, França, Alemanha, etc.) suscita apreensão nos países que ainda não foram contagiados pelo vírus. Em Portugal vários grupúsculos e pequenos líderes tentam aproveitar o ar dos tempos, aspirando a tornar-se os Trumps, Bolsonaros ou Salvinis lusitanos. Até prova em contrário, estas imitações de baixa qualidade parecem condenadas ao fracasso. Isso não significa, porém, que o país esteja livre de populismos da mesma espécie. Os riscos, porém, vêm de outras paragens, a mais óbvia das quais já é antiga, mas perdura por boas e más razões - o populismo territorial.

Premium

João Gobern

Navegar é preciso. Aventuras e Piqueniques

Uma leitura cruzada, à cata de outras realidades e acontecimentos, deixa-me diante de uma data que, confesso, chega e sobra para impressionar: na próxima semana - mais exatamente a 28 de novembro - cumpre-se meio século sobre a morte de Enid Blyton (1897-1968). Acontece que a controversa escritora inglesa, um daqueles exemplos que justifica a ideia que cabe na expressão "vícios privados, públicas virtudes", foi a minha primeira grande referência na aproximação aos livros. Com a ajuda das circunstâncias, é certo - uma doença, chata e "comprida", obrigou-me a um "repouso" de vários meses, longe da escola, dos recreios e dos amigos nos idos pré-históricos de 1966. Esse "retiro" foi mitigado em duas frentes: a chegada de um televisor para servir o agregado familiar - com direito a escalas militantes e fervorosas no Mundial de Futebol jogado em Inglaterra, mas sobretudo entregue a Eusébio e aos Magriços, e os livros dos Cinco (no original The Famous Five), nada menos do que 21, todos lidos nesse "período de convalescença", de um forma febril - o que, em concreto, nada a tinha que ver com a maleita.

Premium

Henrique Burnay

O momento Trump de Macron

Há uns bons anos atrás, durante uns dias, a quem pesquisasse, no Yahoo ou Google, já não me lembro, por "great French military victories" era sugerido se não quereria antes dizer "great French military defeats". A brincadeira de algum hacker com sentido de ironia histórica foi mais ou menos repetida há dias, só que desta vez pelo presidente dos Estados Unidos, depois de Macron ter dito a frase mais grave que podia dizer sobre a defesa europeia. Ao contrário do hacker de há uns anos, porém, nem o presidente francês nem Donald Trump parecem ter querido fazer humor ou, mais grave, percebido a História e o presente.

Premium

Ruy Castro

Um Vinicius que você não conheceu

Foi em dezembro de 1967 ou janeiro de 1968. Toquei a campainha da casa na Gávea, bairro delicioso do Rio, onde morava Vinicius de Moraes. Vinicius, você sabe: o poeta, o compositor, o letrista, o showman, o diplomata, o boémio, o apaixonado, o homem do mundo. Ia entrevistá-lo para a Manchete, revista em que eu trabalhava. Um empregado me conduziu à sala e mandou esperar. De repente, passaram por mim, vindas lá de dentro, duas estagiárias de jornal ou, talvez, estudantes de jornalismo - lindas de morrer, usando perturbadoras minissaias (era a moda na época), sobraçando livros ou um caderno de anotações, rindo muito, e foram embora. E só então Vinicius apareceu e me disse olá. Vestia a sua tradicional camisa preta, existencialista, de malha, arregaçada nos cotovelos, a calça cor de gelo, os sapatos sem meias - e cheirava a talco ou sabonete, como se tivesse acabado de sair do banho.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Dispensar o real

A minha mãe levou muito a sério aquele slogan dos anos 1970 que há quem atribua a Alexandre O'Neill - "Há sempre um Portugal desconhecido que espera por si" - e todos os domingos nos metia no carro para conhecermos o país, visitando igrejas, monumentos, jardins e museus e brindando-nos no final com um lanche em que provávamos a doçaria típica da região (cavacas nas Caldas, pastéis em Tentúgal). Conheci Santarém muito antes de ser a "Capital do Gótico" e a Capela dos Ossos foi o meu primeiro filme de terror.

Premium

Adriano Moreira

Entre a arrogância e o risco

Quando foi assinada a paz, pondo fim à guerra de 1914-1918, consta que um general do Estado-Maior Alemão terá dito que não se tratava de um tratado de paz mas sim de um armistício para 20 anos. Dito ou criado pelo comentarismo que rodeia sempre acontecimentos desta natureza, o facto é que 20 anos depois tivemos a guerra de 1939-1945. O infeliz Stefan Zweig, que pareceu antever a crise de que o Brasil parece decidido a ensaiar um remédio mal explicado para aquela em que se encontra, escreveu no seu diário, em 3 de setembro de 1939, que a nova guerra seria "mil vezes pior do que em 1914".