O voto útil não é inútil?

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A ideia de voto útil, à partida, parece ser algo sensato e inteligente para impedir que candidatos cuja ideologia ou caráter nos repugnam possam vir a ser eleitos. Porém essa ideia de “evitar o pior” tem uma consequência lógica e inevitável: afasta-nos cada vez mais, de eleição para eleição, da possibilidade de, um dia, se “chegar ao melhor”.

O chamado “voto útil”, na verdade, é desconfortável para quem pensa que a sociedade se deve organizar de uma forma diferente da atual, por identificar neste modelo a perpetuação de inúmeras injustiças. Porquê? Porque esse voto dirige-se quase sempre para forças ou candidatos que tendem a defender e a eternizar o atual modelo de sociedade e, pior do que isso, a implementar e a aprofundar a sua estonteante evolução, tão negativa e assustadora para tanta gente, no sentido que ela tomou nas últimas décadas.

Por isso, nas presidenciais de domingo, o voto de uma pessoa de esquerda em alguém de centro-esquerda com o perfil de António José Seguro é um voto na continuidade e, pior, na fossilização dessas injustiças. E, quase de certeza, abre caminho para novas injustiças.

Porém, um “voto útil” de alguém de esquerda em alguém de centro-esquerda poderia facilmente acontecer se o candidato que o pede estabelecesse um compromisso mínimo programático que fizesse parte de uma, mesmo que pequena e tímida, evolução da sociedade no sentido de, por um lado, defender as salvaguardas já institucionalizadas contra antigas injustiças e, por outro lado, proporcionar alguns avanços no sentido da eliminação de algumas outras injustiças.

António José Seguro deveria ter-se comprometido em lutar pela defesa do essencial da Constituição não só em matérias de direitos democráticos básicos, o que fez (e isso, junto à sua seriedade pessoal, é um valor positivo), mas também em outras matérias que lá estão escritas, como a defesa da tendência gratuita e das obrigações do Estado no Serviço Nacional de Saúde, a defesa ampla dos direitos dos trabalhadores, a defesa de uma política de relações internacionais em busca da paz e do fim dos blocos militares. Mas nem esse mínimo fez por, provavelmente, não acreditar nesses conceitos, o que faz com que se diferencie pouco de outros candidatos do centro-direita.

Se Seguro não for eleito, o facto de o centro-direita chegar à Presidência da República é irrelevante pois, na verdade, o seu programa político, pelas falhas de compromisso com políticas minimamente de esquerda, é compatível com essa direita, que conviverá bastante bem com ele e conseguirá aplicar o seu projeto. Quanto a André Ventura, mesmo passando à segunda volta, tem hipóteses muito remotas de ser eleito.

O voto útil funciona como um funil. Em vez de alargar o debate político, estreita-o.

É por isso que a primeira volta das presidenciais do próximo domingo deveria ser tratada como um momento de afirmação, não como um referendo ao medo. Na primeira volta o voto útil é um ato de autocensura política: não se vota no que se pensa, vota-se no que “dá”. E quando essa renúncia se repete, eleição após eleição, o resultado é previsível: a frustração aumenta, a democracia perde densidade e os que querem acabar com a esta democracia obtêm mais apoio - e aí, a médio prazo, André Ventura prosperará ainda mais, acabará por poder ganhar eleições e formar Governo. E é por isso que acho que o voto útil é, neste momento, inútil.

Jornalista

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