O terceiro terço

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Para as eleições presidenciais de outubro no Brasil, a perceção geral é de que o eleitorado está dividido em três. E que dois desses três terços estão calcificados.

Um deles é o dos eleitores de Lula da Silva. Uns cerca de 30 a 35% de brasileiros votam no atual presidente da República independentemente de escândalos de corrupção antigos, como o Mensalão ou a Lava-Jato, nos quais o candidato, se não pecou por pensamentos, palavras e atos, pelo menos, errou por omissão. Esse eleitorado também é imune ao argumento de que, com Lula, o governo, com 37 ministérios iniciais e ainda mais um criado a meio do mandato, e o Estado, com políticas sociais recicladas ou novas, têm excesso de peso.

Não: para eles, Lula é, antes de tudo, um social-democrata que puxou 40 milhões de compatriotas da pobreza para a sociedade de consumo, que tirou, a meias com a sucessora Dilma Rousseff, o país do Mapa da Fome da ONU, que não hostiliza mas também não se verga aos grandes interesses mundiais, sejam os dos Estados Unidos, os da China ou os da União Europeia, e que tem, mesmo aos 80 anos, um dos discursos mais frescos e modernos do país e do mundo - o que é também revelador da falta de frescor e de modernidade dos pensamentos brasileiro e mundial de hoje.

O outro terço vota no substituto de Jair Bolsonaro, o maior fenómeno eleitoral pós-Lula, hoje na cadeia, seja ele o declarado senador Flávio Bolsonaro, seja ele o velado governador Tarcísio de Freitas. Mesmo tendo em conta que o ex-presidente é um negacionista adorador de ditadores, torturadores e chacinas. E que, mesmo com discurso de paladino anticorrupção, comprou, a solo ou em família, 51 imóveis em dinheiro vivo, permitiu um esquema de troca de verbas públicas por barras de ouro no Ministério da Educação, não agiu contra a aquisição fraudulenta de vacinas de vão de escada contra a covid-19 no Ministério da Saúde e desviou para o próprio bolso jóias oferecidas pelo Estado da Arábia Saudita ao Estado brasileiro.

Não: para eles, há que votar em quem concorra contra Lula e o Partido dos Trabalhadores, seja o rival um intelectual liberal, como Fernando Henrique Cardoso (ou os seus mais ou menos dignos sucessores José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves) ou um obscurantista conservador, como Bolsonaro (e derivados), no presente.

Sobra o terço não-calcificado, que em 2018 ainda ameaçou reunir-se em torno de Ciro Gomes, 12%, mas há quatro anos foi representado apenas pelos minúsculos 4% de Simone Tebet nas respetivas primeiras voltas.

Ou seja, há oito anos esse terço, influenciado pela Lava-Jato, preferiu maioritariamente Bolsonaro a Fernando Haddad e a uma opção da chamada terceira via, e em 2022, ainda sob os efeitos do desastroso governo de Bolsonaro, pendeu para Lula, ignorando o caminho do meio.

Mas é esse terço, hoje entre a centro-esquerda e a extrema-direita, quem vai decidir o presidente em outubro de 2026 no Brasil. E, a propósito, o presidente de Portugal já em fevereiro também.

Jornalista, correspondente em São Paulo

Diário de Notícias
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