O Segredo dos Gémeos (II)

A título pedagógico, em historieta inventada para o efeito, já aqui se escreveu sobre gémeos idênticos que, como se elucidou, têm património genético igual. O mesmo ADN. Muitos romancistas, novelistas, dramaturgos e poetas têm dedicado atenção ao fenómeno da gestação gemelar. Poucos, no entanto, terão tido como objetivo narrar a sua génese. É esse o propósito dos esclarecimentos que se seguem.

Antes de mais, há que notar dois grandes grupos de gravidez gemelar: por um lado, a resultante de conceção natural e, por outro, a artificial que decorre de técnicas de procriação assistida.

No âmbito da primeira, há que distinguir dois tipos distintos: gémeos idênticos (monozigóticos ou univitelinos) e gémeos diferentes (bivitelinos).

Sabe-se, com toda a certeza, que o desenvolvimento dos gémeos idênticos é fruto de mero acaso. A probabilidade de acontecer uma gravidez desta natureza não tem influência hereditária.

Tudo começa com a libertação de um óvulo na trompa que num prazo de 24 horas será fertilizado por um só espermatozoide. Forma-se, então, um ovo fecundado (zigoto) que por clivagens sucessivas, durante os primeiros 4 dias após a fecundação, dá origem a um conjunto de células de forma esférica que faz lembrar uma amora como resultado da subdivisão do ovo em 2, 4, 8, 16, 32 ... (por isso, essa aglomeração de células é chamada mórula).

O embrião, pelo quinto dia, dirige-se para a cavidade uterina onde fica implantado. Eis senão quando, sem qualquer explicação, mero fruto do acaso, o embrião divide-se ao meio, mas cada metade continua a multiplicar-se pelo seu lado (1). Isto é, o mesmo embrião inicial dá origem a dois (com a mesma placenta e envolvidos pelo mesmo saco amniótico). Compreende-se, pois, que os gémeos idênticos sejam do mesmo sexo. A partir da oitava semana, depois da fecundação, os embriões dão lugar a dois fetos. Durante esta fase a mãe pode suspeitar de gravidez gemelar pelo tamanho, ou o médico ouvir dois batimentos cardíacos. As imagens de ecocardiografia confirmarão dois fetos.

Já os gémeos diferentes (bivitelinos) resultam do desenvolvimento embrionário, sempre em separado, desde a fecundação: dois óvulos diferentes fertilizados por dois espermatozoides diferentes. Neste caso, são libertados dois óvulos, em lugar de um só, que são, independentemente, fecundados cada um por um espermatozoide. Cada embrião (e depois, cada feto) tem o seu próprio ADN, podendo ser do mesmo sexo ou não. Formam-se duas placentas e dois sacos amnióticos distintos.

Ao contrário dos gémeos idênticos, a gestação de gémeos diferentes é, de certa forma, influenciada por razões hereditárias do lado materno (maior propensão para libertar mais de um óvulo em cada ciclo). A probabilidade em acontecer uma gravidez de gémeos falsos é maior (cerca de 1,1%) do que a gravidez de gémeos idênticos (0,4%).

O nascimento de gémeos no seio de uma família constitui um misto de festa e desassossego. Uma agitação permanente. Um espetáculo, ao mesmo tempo. Em especial quando são gémeos idênticos que não se distinguem um do outro. Uma emoção que se prolonga ao longo de todas as etapas da vida. Afinal:

- És tu ou o teu irmão

(1) Imagine-se uma amora cortada ao meio e que em cada metade prossegue a multiplicação celular.


Ex-diretor-geral da Saúde
franciscogeorge@icloud.com

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