As eleições presidenciais não servem para escolher um governante, um comentador moral ou um protagonista do quotidiano mediático. Servem para escolher uma figura de Estado. Portanto, um líder. E essa distinção, tantas vezes esquecida, é talvez a mais importante.A Constituição é clara: o Presidente da República representa a República Portuguesa e garante a independência nacional, a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições democráticas. Não governa nem administra, mas tem poderes que podem alterar o curso político e, sobretudo, uma autoridade simbólica que não se decreta: constrói-se na contenção, na palavra certa e na capacidade de unir quando o país se fragmenta.Num tempo de ruído permanente, a Presidência não pode ser confundida com ativismo nem com silêncio cúmplice. Exige discernimento, contenção, coragem e uma compreensão profunda dos limites do cargo. Um Presidente não resolve tudo, mas pode agravar muito caso falhe no tom, no critério ou na ética.O atual debate presidencial reúne perfis muito distintos. Luís Marques Mendes insiste numa Presidência independente, equidistante e constitucionalmente rigorosa. André Ventura procura transformar a eleição num confronto direto de agendas políticas. Henrique Gouveia e Melo projeta uma ideia de autoridade baseada na disciplina. António José Seguro sublinha a necessidade de equilíbrio, inclusão e estabilidade institucional. E podia continuar, mas a lista de candidatos a líderes máximos do país é extensa, fico-me por aqui.Ser Presidente da República implica representar Portugal no mundo com dignidade, falar quando é necessário e calar quando o silêncio protege mais do que a declaração. Implica respeitar a Constituição mesmo quando ela é incómoda, e exercer o poder de influência sem o confundir com poder de comando. Implica perceber que a palavra presidencial pesa e que cada excesso tem consequências.Exigir mais dos candidatos não é cinismo nem desconfiança. É maturidade democrática. Num tempo em que tudo parece provisório e descartável, a Presidência deve ser um ponto de referência estável, não um amplificador de tensões.As eleições presidenciais não são um concurso de popularidade nem um teste de nervos. São uma escolha sobre quem somos enquanto comunidade política e sobre a forma como queremos ser representados. Convém não esquecer isso quando o debate subir de tom. Porque um Presidente não nos governa, mas pode, para o bem ou para o mal, definir o clima político de um país.