Quando ocorre uma calamidade natural ou um acidente grave as análises são descartadas como aproveitamento político, independentemente das forças políticas que estejam no governo ou na oposição. Mas isso não nos deve inibir de fazer uma valoração factual da atuação do Governo, dos autarcas e de outras entidades públicas perante situações de crise. Só assim se pode evitar a repetição de erros, fazer um planeamento preventivo e adotar medidas de mitigação das consequências destas ocorrências. Até porque, apesar dos absurdos negacionistas, as alterações climáticas são uma realidade e estes fenómenos vão acontecer cada vez com mais frequência.A depressão Kristin expôs debilidades graves. Apesar dos avisos da Meteorologia, faltou informação às populações, fracassou a prevenção e falhou o socorro. Até agora, 12 pessoas perderam a vida por causas relacionadas com a tempestade, continuam milhares de pessoas sem eletricidade e sem água, há centenas de desalojados, casas de habitação e infraestruturas destruídas, perda de comunicações. Aliás, tendo em conta o que aconteceu no Apagão de abril de 2025, o regulador já devia ter tomado uma posição forte quanto à falha total das comunicações.Os autarcas foram os primeiros a responder, assim como os bombeiros, as forças de segurança e a Proteção Civil, além do grande número de voluntários.Mas faltou planificação e coordenação. Faltou o Governo e a Administração Central. É verdade que a presença de ministros no terreno nos primeiros dias pode até atrapalhar. Mas, na realidade, a isso é que não faltaram: comitivas de carros de alta cilindrada, o ministro da Defesa Nacional a montar um teatro de operações (nunca a palavra “teatro” foi tão bem empregue) para os meios de comunicação social, que foi desmontado mal as câmaras de televisão se afastaram; a ministra da Administração Interna a repetir o mantra da aprendizagem coletiva, o ministro da Presidência atarefado a fazer vídeos para as redes sociais e o PM a “pairar”… É que, bem ao contrário do que se tem ouvido, não houve falta de comunicação. Foi mesmo a excessiva preocupação com a imagem que levou o Governo a dar mais importância a aparecer do que a resolver efetivamente os problemas das pessoas. Uma nota positiva no meio de tudo isto: a escolha de Paulo Fernandes para coordenar a Estrutura de Missão (outra coisa, menos positiva, é a proliferação destas estruturas).É preciso repor a energia elétrica, a água e as comunicações, alojar os desalojados, proteger as casas danificadas, apoiar as famílias das vítimas e a recuperação das empresas. As populações sentem-se abandonadas e desprezadas, o que só contribui para a perda de coesão social e regional.Incompetência, desnorte e falta de empatia. O Governo tem demonstrado incapacidade para atuar em situações de crise e desconhecimento da própria máquina do Estado.Será que, tal como no caso do Elevador da Glória, ocorrido faz esta semana 5 meses, nenhuma responsabilidade vai ser apurada, tudo devorado por um silêncio ensurdecedor? Vereadora na Câmara Municipal de Lisboa eleita pelo PS