O partido com operários de vidro

Natural que um partido que pretende representar a "classe trabalhadora" deseje ter entre os dirigentes quem dela provenha. Mas transformar políticos profissionais, como o novo secretário-geral, em "operários", é uma mistificação tão ridícula como a de quem compra títulos de nobreza para dizer que tem sangue azul.

O PCP costuma queixar-se da forma como é tratado pelos media. É um assunto interessante: na verdade, os media têm bons motivos para se queixar de volta.

Até surgir o Chega, que tenta evitar qualquer contacto direto de jornalistas com os seus dirigentes, à exceção do presidente, o PCP levava a palma como o partido no qual era mais difícil obter respostas ou contactar diretamente com membros da hierarquia, e até com deputados. Deve-se tal a uma notória obsessão com o controlo do discurso e da mensagem e a uma enorme desconfiança em relação aos jornalistas, que não raro são, apesar do suposto respeito do PCP pelos assalariados, por ele descritos como serventuários dos patrões e esbirros do capital.

A revelação da identidade do novo secretário-geral, este fim de semana, vista pela generalidade dos jornalistas e comentadores com surpresa (releve-se que numa entrevista há menos de um ano, quando questionado sobre nomes possíveis para o suceder, Jerónimo de Sousa mencionou quatro, nenhum deles sendo Paulo Raimundo, o que ou significa que quis esconder a existência dessa possibilidade ou que não o via - pelo menos então - como contendor) evidencia no entanto uma cobertura bem simpática. Baseando-se na biografia publicada no site do partido, os media fizeram títulos como "homem de vários ofícios" ou "o padeiro que é o novo líder".

Sucede que, lendo a mui hagiográfica nota que o PCP publicou sobre o percurso de Raimundo (na qual é evidente o esforço de criação de uma "vida e obra", em contraste com a secura habitual das biografias de dirigentes, de que é exemplo a do anterior secretário-geral) o que salta à vista não é que tenha tido "muitos ofícios" ou o de padeiro, mas que desde muito novo é funcionário político.

Mais precisamente desde 1995, aos 18/19 anos, quando, diz-nos a nota, entrou para os quadros da Juventude Comunista Portuguesa (JCP), tendo aos 27/28 ingressado nos do PCP. Trata-se pois, a crer na forma como o partido descreve os seus funcionários, de um "revolucionário profissional", "com total disponibilidade para a luta", "exemplo de entrega à causa dos trabalhadores e do povo".

Motivo de orgulho, não? Não, pelos vistos. Porque não é esse título épico e paradoxal - "revolucionário profissional" - que encontramos como profissão de Raimundo na página do secretariado do Comité Central, mas o de "operário". É um dos quatro, em dez membros do órgão, identificado como tal. Os outros são o ainda secretário-geral, Jerónimo de Sousa, Francisco Lopes (que foi candidato à presidência da República) e Rui Braga.

Já me debrucei, há três anos, num outro texto - a propósito da deliberação, pela maioria dos deputados de todos os partidos, de fugir, como o diabo da cruz, da tarja de "político profissional", e do que tal significa de cedência populista -, sobre as biografias de Jerónimo e Lopes. Identificados no site do parlamento como, respetivamente, "afinador de máquinas" e "eletricista", os dois têm a política como única atividade profissional desde os anos 1970. Já sobre Rui Braga não encontrei informação, nem sequer uma nota biográfica no site do PCP. O mesmo sucedeu com mais membros do Comité Central (por exemplo com dois dos crismados de "intelectuais", Alexandre Araújo e Manuela Pinto Ângelo). Já com José Capucho e Jorge Cordeiro, cuja identificação como "empregados" me deixou curiosa, tive mais sorte.

José Capucho, de 63 ou 64 anos (não encontrei a data exata de nascimento), é funcionário do PCP desde 1986; antes, desde 1974, foi-o da União dos Jovens Comunistas e da JCP. Ou seja, se faço bem as contas, é funcionário comunista desde os 16 ou 17 anos. Aquele "empregado" na página do Comité Central quererá então dizer empregado do partido? A crer no próprio, num discurso de 2020 sobre, precisamente, "os quadros do partido", nem pensar: "os funcionários do Partido (...) não são, nem nunca foram, empregados ou tarefeiros, nem têm uma carreira profissional (...)."

Uma asserção da qual Jorge Cordeiro parece discordar. Nascido em 1953, segundo a sua nota biográfica no site do PCP funcionário do partido desde 1975 (ou seja desde os 21/22), no site do parlamento - foi deputado na XII legislatura (2011/2015) - assume-se como "funcionário político" com "frequência de licenciatura em medicina". Não fui examinar todas notas biográficas de deputados comunistas presentes e passados para saber se é o único a ostentar este título, mas louva-se o desassombro. Fica é por perceber a incongruência entre a ficha parlamentar e o site do PCP.

Ou não; num texto desta segunda-feira, sobre precisamente quem são, o que fazem e quanto auferem os mais de 300 funcionários do PCP, o Público cita uma resolução do respetivo congresso de 2016, na qual se registam "insuficiências na organização do partido nas empresas e locais de trabalho que se refletem no recrutamento de operários para o quadro de funcionários", e outra de 2004, que diz ser necessário "prestar cuidadosa atenção à origem social dos quadros, particularmente dos funcionários (...)."

Tal cuidado, que como vemos se traduz em apreciável liberdade literária na criação de biografias e profissões, traduz-se "para fora" em cuidadosa opacidade - tão cuidadosa que o PCP nem quis esclarecer o Público sobre o que é ser funcionário do partido ou sobre o respetivo estatuto remuneratório. Acrescendo que, ao contrário do ocorrido normalmente com dirigentes partidários, os quais por defeito estão sempre sob suspeita, qualquer dúvida sobre o percurso do novo líder do PCP tende a ser acolhida, pelos correligionários e não só, como blasfémia e perseguição. Se quem vive uma vida como político profissional noutros partidos é derrisoriamente apelidado de "boy", no PCP é pelos vistos equiparado a santo.

Na discussão surgida este fim de semana no Twitter a propósito da alegada profissão de Paulo Raimundo houve até quem, na eterna senda do redutio ad luta de classes, imputasse aos que insistem no escrutínio um preconceito - o de que um líder de um partido não pode ser operário, por não ser uma profissão "importante". O ex-deputado João Oliveira (identificado no site do parlamento com a profissão de advogado e um dos candidatos a secretário-geral que ficaram pelo caminho) fala mesmo em "desvalorização da origem operária" de Raimundo.

Ora o problema é ao contrário: é o PCP que ostenta um preconceito contra outras profissões que não as que, de preferência escolhidas de um limitado cardápio cunhado no século XIX, confere aos seus dirigentes máximos. Ao apor a Raimundo a coroa de operário, atestando-lhe o único sangue azul que reconhece, e assim a "pureza" e superioridade moral que considera que ele transporta, o partido, paradoxalmente, fragiliza o seu novo secretário-geral com uma identidade ​​​​​​estilhaçável.

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