Segundo a ONU, até novembro de 2025 mais de 69 mil palestinianos foram mortos e cerca de 170 mil feridos pelos bombardeamentos em Gaza ocorridos depois de um ataque terrorista perpetrado pelo Hamas a 7 de outubro de 2023, que matou 726 civis bem como 379 militares e polícias israelitas. A resposta desproporcional de Israel ao terrorismo, assim quantificada, foi objetivamente uma carnificina, um autêntico genocídio, como muitos o classificam. A entrada em vigor do acordo de paz entre Israel e o Hamas negociado em outubro deste ano por Donald Trump retirou do foco mediático a situação humanitária no território palestiniano, mas a ONU voltou a fazer soar o alarme, perante a indiferença ocidental. Tudo isto escancara um duplo critério por parte dos governos ocidentais. A Amnistia Internacional sublinhou várias vezes a contradição de países como Estados Unidos, Reino Unido, França e Alemanha, que condenaram e sancionaram com veemência os crimes de guerra russos na Ucrânia, mas fecharam os olhos ou justificaram a violência massiva de Israel. Em maio de 2025, Bruxelas ainda se limitava a pedir mais ajuda humanitária para Gaza. Somente perto do final de 2025 é que se notaram sinais de despertar de consciência nas lideranças europeias (incluindo a do governo de Portugal). Numa mudança de tom, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reconheceu em setembro que o que se passava em Gaza “abalou a consciência do mundo” e era “inaceitável”. Mas esse “inaceitável” pariu pouca coisa: Von der Leyen ameaçou apenas suspender parcialmente o Acordo de Associação UE-Israel. E nem uma simbólica exclusão de Israel do festival da canção da Eurovisão (de que a Rússia fora banida) se efetivou. Na verdade, depois de 23 meses de manifestações ininterruptas por toda a Europa a clamar pelo fim do massacre em Gaza, a imagem europeia ficou irremediavelmente manchada. Em discursos inflamados na ONU, líderes do Sul Global acusaram abertamente o Ocidente de hipocrisia – “os que falam em democracia sustentam ditaduras; os que falam em paz alimentam a guerra”, sintetizou o presidente colombiano Gustavo Petro. A crise de Gaza revelou também um alarmante retrocesso nos valores democráticos. Logo em outubro de 2023, o governo francês tentou proibir protestos pró-Palestina – uma medida posteriormente anulada pelos tribunais, mas não antes de dezenas de manifestações serem canceladas. Em Berlim, as autoridades chegaram a proibir símbolos como o lenço tradicional palestiniano e slogans de “Palestina Livre” nas instituições de ensino. No Reino Unido, ativistas e músicos enfrentaram detenções e foram vigiados pelas polícias e serviços secretos, e um grupo de ação direta foi mesmo classificado como “terrorista” pelas suas ações simbólicas de protesto. Por toda a Europa (e nos EUA), manifestantes pacíficos foram detidos e vigiados, num clima em que expressar empatia pelo povo de Gaza passou a ser arriscado. Inúmeros académicos, artistas, intelectuais, políticos e ativistas sofreram retaliações graves por tomarem posições contra o massacre. Tais ações contradizem frontalmente a alegada defesa ocidental da liberdade de expressão e de protesto – princípios que as “democracias liberais” regularmente invocam para denunciar outros países. A suposta autoridade moral europeia e ocidental perdeu-se com o que se passou em Gaza – e este é um relevante facto político de 2025, que anda muito esquecido por aí. Jornalista