A conferência que a Polícia Judiciária (PJ) realiza esta terça-feira, dedicada à prevenção da radicalização online de crianças e jovens, assinala um momento relevante no enquadramento público de um fenómeno que tem vindo a ganhar expressão em Portugal e no espaço europeu. A iniciativa, integrada na comemoração dos 80 anos da PJ, que inclui o lançamento de uma campanha nacional, resulta de uma leitura com muito conhecimento de causa da evolução deste fenómeno.Como explicou ao DN a diretora da Unidade Nacional de Contraterrorismo da PJ, “a problemática da radicalização de crianças e jovens em ambiente online constitui atualmente um dos maiores desafios para a segurança interna do espaço europeu”. Esta avaliação converge com a de várias instâncias europeias, que identificam um aumento do envolvimento de jovens, incluindo menores, em processos associados a extremismos violentos, tanto na fase de preparação como na de execução de atos criminais.A experiência de investigação da PJ mostra que o discurso de ódio ocupa um lugar central nesses percursos. O ódio surge associado à exploração de vulnerabilidades emocionais e sociais, como a solidão, o isolamento, a ausência de pensamento crítico ou problemas de saúde mental. O ambiente digital potencia este processo, em particular quando os algoritmos funcionam como câmaras de eco que validam e reforçam narrativas extremistas.Esta preocupação tem vindo a ser reiteradamente sinalizada pela Direção Nacional da Polícia Judiciária. Em várias intervenções públicas nos últimos anos, o diretor Nacional da PJ, Luís Neves, tem alertado para o crescimento da violência, dos extremismos e do discurso de ódio entre os mais jovens, sublinhando a difusão de mensagens assentes na manipulação, na desinformação e na hostilidade dirigida à diversidade humana, em particular nos meios digitais. Estes processos de radicalização assentam frequentemente em narrativas ideológicas e políticas que constroem uma perceção permanente de ameaça. Essas narrativas simplificam a realidade, identificam inimigos e mobilizam o medo como fator emocional central. O medo funciona como predisposição, criando condições favoráveis à aceitação do ódio e à legitimação de visões extremadas, sobretudo entre jovens em fase de construção identitária.É curioso como, em 2011, já o escritor moçambicano Mia Couto, explicava essa relação num discurso simultaneamente duro e belo, nas Conferências do Estoril, que tive o privilégio de ouvir em primeira mão, alertando para sociedades em que a perceção constante de perigo conduz à suspensão do questionamento crítico. Ao afirmar que “sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um Exército sem nome”, descreveu um processo em que o medo normalizado facilita a aceitação acrítica de narrativas simplificadoras e a transformação do outro numa ameaça. A ideia de uma realidade permanentemente perigosa - “a Humanidade imprevisível”, “a necessidade de estar sempre em alerta” - contribui para um ambiente emocional propício à hostilidade e à exclusão.Transportado para o espaço digital, esse mecanismo ganha escala e intensidade, tornando-se particularmente eficaz na mobilização do ódio. Entre jovens, o medo oferece um enquadramento simples para frustrações reais e o discurso de ódio surge como linguagem de pertença, de afirmação e de ação.A gravidade destes processos é muito real. Em 2024, a PJ deteve um jovem de 17 anos, na zona norte do país, indiciado pela prática de crimes de homicídio qualificado, ofensas à integridade física qualificada, discriminação e incitamento ao ódio e à violência, bem como crimes de pornografia de menores. A investigação revelou a criação e gestão, por parte do suspeito, de um grupo numa plataforma digital, na qual eram promovidas ideologias extremistas de matriz nazi e incentivadas práticas de violência extrema, incluindo automutilação de jovens, maus-tratos e morte de animais, difusão de propaganda extremista e a preparação de ataques em contexto escolar.Nesse grupo eram partilhados conselhos operacionais, imagens de armas e alvos, bem como conteúdos de violência real, num processo que culminou num ataque com arma de fogo a uma escola no Brasil, com a morte de uma jovem de 17 anos. O caso ilustra de forma clara como o discurso de ódio, alimentado por narrativas extremistas e amplificado em ambientes digitais fechados, pode evoluir rapidamente para violência concreta, transnacional e irreversível.É precisamente sobre este terreno que atua a campanha agora lançada pela PJ. A iniciativa procura intervir numa fase inicial do processo de radicalização, apostando na prevenção, na literacia digital e na capacitação de pais, professores e educadores para reconhecer sinais precoces e quebrar o isolamento antes da consolidação de trajetórias de radicalização.Ao enquadrar a radicalização online de crianças e jovens como uma questão de segurança interna, a PJ afirma a prevenção como um eixo central da resposta democrática a fenómenos complexos que combinam fatores emocionais, sociais, tecnológicos e ideológicos. A realização da conferência e o lançamento da campanha constituem um sinal claro de que a investigação criminal, por si só, não é suficiente para enfrentar o problema. Aliás, ela só é precisa depois de o crime consumado, quando toda a prevenção falha.Num contexto em que o espaço digital ocupa um lugar central na formação das identidades juvenis, iniciativas como esta reforçam a ideia de que a segurança se constrói também através da educação, da prevenção e da responsabilidade partilhada. Agir a montante, no momento em que o medo ainda pode ser reconhecido e questionado, é condição essencial para impedir que ele se transforme em ódio e violência.