Na sua tão célebre como polémica tese sobre o choque das civilizações, que começou por ser defendida num artigo na Foreign Affairs e depois originou um livro, o académico americano Samuel P. Huntington identificava oito grandes civilizações, como a Ocidental, a Islâmica, a Sínica ou a Africana. Só um delas, a Japonesa, era exclusiva de um país, o que mostra a excecionalidade desta nação asiática, muito influenciada na origem pela cultura chinesa, mas que ao longo dos séculos construiu uma forte identidade própria, mesmo que integrando elementos vindos de fora, desde o budismo nascido na Índia à influência cultural americana pós-Segunda Guerra Mundial. Também Portugal deu o seu contributo para a História do Japão, ao serem portugueses os primeiros europeus a visitar o arquipélago, em 1543, seguindo-se um século de forte presença, que terminou mal, pois o cristianismo em expansão foi visto como uma ameaça à unidade pelos xóguns Tokugawa, que governavam em nome do imperador.Saltemos para a atualidade. O Japão confirma-se como um país excecional, basta ver a influência global do seu soft power, do manga e anime ao sushi, e o prestígio da sua tecnologia, das câmaras fotográficas aos automóveis e motos. Enfrenta, há bastante tempo, desafios económicos e uma crise demográfica, mas continua a ser uma das grandes economias mundiais e faz parte do grupo de países com mais de cem milhões de habitantes. E, apesar dos limites pacifistas impostos pela Constituição pós-Segunda Guerra Mundial, está também entre os dez países com mais gastos militares. Ora, economia, demografia e defesa combinam-se na realidade do país em 2026 de uma forma muito intensa, e explicam em boa parte o sucesso da primeira-ministra Sanae Takaichi. Chefe do governo desde outubro do ano passado, por ter conquistado a liderança do Partido Liberal Democrático, foi agora confirmada nas urnas, numas eleições antecipadas que lhe deram uma vitória esmagadora, um resultado que seria de sonho até para o carismático Shinzo Abe, o antigo primeiro-ministro assassinado que foi o seu mentor político.Com a maioria absoluta que o PLD tem agora na câmara baixa do parlamento, e o reforço do outro partido da coligação governamental, Takaichi tem um mandato claro, e certa margem para lidar com os três desafios. Na demografia, os resultados serão sempre demorados, mesmo que a primeira-ministra reforce os incentivos à natalidade; na economia, os estímulos governamentais, na lógica dos abenomics, do nome do mentor, terão ainda de provar a eficácia; já no plano militar, apesar da relação estreita com o desempenho económico do país, a situação é mais clara, pois Takaichi é defensora da revisão do artigo 9.º da Constituição, que tem limitado o Japão a umas eufemísticas forças de autodefesa. E o contexto internacional, pelo acumular de tensões regionais e globais, favorece essa ambição.A vitória recorde (316 assentos para o PLD em 465) é mérito de Takaichi, cuja imagem de líder forte - até já lhe chamam a dama de ferro japonesa - parece convencer o eleitorado. Também terá jogado a seu favor a boa relação com Donald Trump. o presidente americano já esteve com ela no Japão e vai recebê-la em março na Casa Branca, numa reafirmação da aliança que vem do pós-guerra, quando os ex-inimigos se aproximaram perante a ameaça soviética durante a Guerra Fria.O Japão, depois da reabertura ao mundo no século XIX, modernizou-se de tal forma que surpreendeu com vitórias em duas guerras sucessivas, contra a China em 1895 e contra a Rússia em 1905. Foi depois um dos Aliados vitoriosos na Primeira Guerra Mundial, mas uma lógica de expansão na Ásia e o ataque aos Estados Unidos em dezembro de 1941 acabaram por resultar na derrota de 1945, após as duas bombas atómicas americanas. Seguiu-se um período de ocupação do arquipélago pelos americanos e o artigo 9.º da Constituição é um legado dessa época a seguir à Segunda Guerra Mundial. Legado de pacifismo forçado que Trump agora prefere ver ultrapassado, em sintonia com Takaichi, o que ajuda a explicar a boa relação.Talvez ainda mais decisivo para o excelente resultado eleitoral tenha sido a vontade dos japoneses de mostrar firmeza perante a China, depois da reação muito crítica dos chineses às declarações de Takaichi sobre um eventual conflito em Taiwan poder envolver resposta japonesa. Além da dureza verbal, houve retaliação económica por parte da China, que considera Taiwan uma ilha rebelde desde que se tornou refúgio em 1949 dos nacionalistas de Chiang Kai-shek quando foram derrotados pelos comunistas de Mao Tsé-tung na guerra civil. A aumentar a sensibilidade chinesa nesta questão está o facto de Taiwan, a antiga Formosa batizada pelos navegadores portugueses do século XVI, ter sido durante 50 anos uma colónia japonesa. Não se tornou, sublinhe-se, belicista a população japonesa de um dia para o outro, até porque a memória dos tempos da guerra está ainda bem presente e não apenas em Hiroxima e Nagasáqui. Mas na hora do voto boa parte do eleitorado terá querido mostrar apoio a Takaichi num momento em que a China, em constante ascensão desde o fim da década de 1970, surge como a grande potência asiática. Tem a segunda maior economia do mundo, e também o segundo maior orçamento militar, em ambos os casos só atrás dos Estados Unidos.Takaichi terá de gerir bem este apoio popular nas mudanças internas que irá tentar fazer, e na política externa evitar acumular tensões com a China, ao mesmo tempo que reforça a ligação aos Estados Unidos. Depois de recebê-la em março, Trump vai à China em abril. Interessante pensar aqui na lógica de Huntington, com Estados Unidos e China a representar, respectivamente, as civilizações Ocidental e a Sínica, procurando evitar o choque direto na luta pela supremacia, e o Japão, o tal país-civilização, sólida democracia nos últimos 80 anos, a procurar o seu lugar entre as grandes potências e a defender os interesses nacionais.