O inferno pode esperar

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Como tem sido devidamente sublinhado, a retrospetiva dos filmes de Dorothy Arzner (1897-1979), a decorrer ao longo deste mês na Cinemateca, é um acontecimento muito especial. Através de uma obra com cerca de duas dezenas de títulos, ela protagonizou um capítulo algo esquecido da história de Hollywood: sendo "uma mulher entre os homens" (leia-se o artigo de Inês N. Lourenço, publicado no DN do passado dia 5), Arzner foi uma exceção no panorama autoral do classicismo americano. A singularidade da sua trajetória fez com que, com o passar das décadas, tenha sido (e continue a ser) um nome de referência para diversos discursos feministas.

Pressinto que o leitor possa considerar que estou a sugerir algum rótulo mais ou menos panfletário para a obra de Arzner, de algum modo inscrevendo a sua herança nos mais recentes combates pela igualdade de géneros. Permito-me, por isso, negar tal sugestão. Desde logo por uma razão muito pragmática: eu próprio estou a descobrir essa obra distante e, no mínimo, não me parece que a sua inteligência narrativa possa ser reduzida a "bandeira" de acontecimentos do nosso século.

Além do mais, não creio que o valor moral e, mais do que isso, a urgência política das combates feministas do presente tenham algo a ganhar com a promoção de uma qualquer ideologia determinista - como se as relações entre "homens" e "mulheres" decorressem de um padrão que se repetiria, de modo automático, independentemente dos protagonistas e do contexto histórico das respetivas vivências.

Esse filme maravilhoso que é Merrily We Go to Hell (1932), entre nós intitulado Quando a Mulher se Opõe, pode servir de motivo de alguma reflexão, a começar pelas singularidades de tom, ambiente, imaginário e imaginação que nele encontramos. Evitemos, por isso, a tentação politicamente correta: mais do que um disparate cinéfilo, seria um infantilismo gratuito lidar com um filme produzido há 90 anos como se nele pudéssemos ler os princípios e valores, até mesmo as palavras de ordem, de uma qualquer agenda política (certamente legítima) gerada na diversidade de caminhos do Movimento #MeToo.

"Merrily we go to hell" (à letra: "Alegremente vamos para o inferno") é uma frase sarcástica que Jerry Corbett, um jornalista com sérios problemas alcoólicos, diz a Joan Prentice, herdeira de uma imensa fortuna, logo na cena de abertura: numa festa que está a acabar, dir-se-ia que ambos procuram algo que, afinal, não aconteceu...

Não será arriscado supor que Arzner foi a primeira a ter consciência de que o seu filme se inscrevia num modelo então corrente de comédia romântica, quase sempre construído a partir do encontro mais ou menos fortuito de um homem e uma mulher de universos sociais (e financeiros) muito diferentes, para não dizer inconciliáveis. Para nos ficarmos pelo que estava a acontecer nessa época em Hollywood, lembremos apenas que Merrily We Go to Hell é do mesmo ano do clássico Trouble in Paradise/Ladrão de Alcova, de Ernst Lubitsch, cujo humor subtil nasce também das "incompatibilidades" sociais das personagens principais.

O tom ligeiro, ligeiramente perverso, é dado nesse primeiro encontro através de um jogo de olhares alheio a qualquer sugestão sexual, pontuado por diálogos que brincam com os próprios clichés das "aventuras românticas" muito populares na época. Diz ele: "Estou um bocadinho bêbedo. É capaz de me perdoar?" Responde Joan: "Parece-me que estão todos um bocadinho bêbedos, mas perdoo-o."

Tudo isto nos chega através de detalhes que, realmente, fazem a essência do cinema, hoje tantas vezes menosprezados em nome dos "significados" e das "mensagens" dos filmes. Por exemplo, a sobriedade elegante, discretamente sensual, com que a câmara segue os movimentos dos corpos. Por exemplo, o tom ambivalente, algures entre a seriedade dos sentimentos e o artifício das poses sociais, das interpretações de Sylvia Sidney e Fredric March - em 1931, ela filmara a versão inigualável de Uma Tragédia Americana, assinada por Josef von Sternberg, enquanto ele protagonizara uma das mais célebres adaptações de O Médico e o Monstro, realizada por Rouben Mamoulian.

Há outra maneira de dizer isto, totalmente alheia aos fundamentalismos "demonstrativos" que parasitam muitas ficções dos nossos dias (no cinema ou nas notícias): as personagens existem como entidades autónomas e irredutíveis, por certo contaminadas pelo contexto social em que vivem - para mais através da sofisticada acutilância de múltiplos detalhes de comportamento -, mas nunca se esgotam em "símbolos" ou "mensageiros" do que quer que seja. Parafraseando o título, diremos que Dorothy Arzner soube filmar o inferno das relações humanas, fazendo uma pausa, sorrindo, perguntando onde está o céu que nos prometeram.

Jornalista

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