O impacto da comunidade

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A série de tempestades que chegaram a Portugal nas últimas semanas colocaram grande parte do nosso país à prova. Foram dias de medo, de incerteza, de angústia e de sentimento de perda. Nas zonas mais afetadas viveram-se momentos de pânico que foram alastrando ao resto do país pelas notícias e relatos, praticamente em tempo real, e que criavam mais ansiedade em relação à tempestade seguinte. Qual seria a próxima zona em perigo?

Em Portugal, embora não seja algo novo, estamos mais habituados ao caos provocado pelos incêndios do que pelas cheias e tempestades. Também fruto da seca que tivemos nos últimos anos e que são as nossas memórias mais recentes. De qualquer forma, estes eventos causados pela força da natureza têm impacto direto nas populações e chegam com tal violência que são impossíveis de conter.

A Ordem dos Psicólogos Portugueses, em parceria com a DGS e a ANEPC, lançou um guia de apoio à população sobre a recuperação emocional de tempestades e inundações. Começa agora um longo trabalho de recuperação das pessoas, dos bens materiais, dos postos de trabalho, das estruturas públicas e privadas importantes para o dia-a-dia das pessoas. A verdade é que é possível que estas situações aconteçam mais frequentemente, de forma cíclica, e em ambos os polos: a inundação/cheia e a seca/incêndios.

Independentemente da situação, quando acalma e há o início do virar da página, começam os trabalhos de limpeza e reconstrução. O efeito de comunidade tem um impacto enorme neste processo. Desde a fase do medo porque se antecipa que algo vem aí até ao começo dos trabalhos, o suporte dos pares, vizinhos, colegas, familiares é essencial. Além do suporte emocional, da deteção de sinais de alerta no outro, é a energia das pessoas que impõe o ritmo de regresso à realidade. Contudo, para isso, são necessárias importantes negociações entre colaboradores e organizações. A faixa etária mais importante para este regresso à normalidade, é quem está em idade ativa e, portanto, a trabalhar.

Mesmo que de forma subtil, organizações que consigam ler as necessidades das pessoas, das estruturas locais e apoiar nesta fase também terão benefícios futuros. Pode ser em bens, em tempo, em mão-de-obra, em real interesse. O sentido comunitário é essencial. É necessário que os serviços funcionem (e.g. escolas) para que também a produtividade seja aos poucos restabelecida.

Embora agora o foco esteja na recuperação, não nos devemos esquecer de somar aprendizagens destas situações. De que forma é que nos podemos preparar para momentos mais exigentes, apostar realmente na prevenção e na mudança de hábitos? Escolher quem nos lidera é um dos passos mais importantes neste processo. Quando tivermos todos melhor consciência que há um antes destes momentos de crise, ganhamos todos: pessoas, organizações e sociedade.

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